As manifestações contra o aumento da tarifa do transporte coletivo em Goiânia, que iniciaram no mês passado, saíram das redes sociais e tomaram as ruas do País. Os ativistas arrastam multidões em todo o País, para protestar contra tudo, como a estrutura defasada dos meios de transporte público, o alto preço da tarifa do transporte coletivo, em desacordo com os gastos superfaturados com a preparação para a Copa do Mundo, dentre outros motivos, como o sucateamento da saúde e da educação.

Nas ruas, os manifestantes enfrentam as tropas da Polícia Militar, com suas armas de efeito moral – cassetete, spray de pimenta, bombas de gás lacrimogêneo e balas de borracha. O movimento, que já é considerado o maior desde o impeachment de Collor, em 1992, suscita uma questão pouco discutida. Afinal de contas, a polícia está ou não  preparada para lidar com manifestações populares dessa dimensão?

Ao que tudo indica, sim. Ao menos teoricamente. Por dois anos, os aspirantes são obrigados a ir para o banco da academia, onde lhes é ensinado até como se comportarem diante de manifestações de massa nas ruas. O problema é que nem sempre aplicam o que lhes foi instruído.

O coronel Avelar Lopes de Viveiros, comandante da Academia da Polícia Militar do Estado de Goiás, explica que a formação geral da polícia é para atendimento ao público e que isso envolve, também, os protestos, uma vez que eles reúnem grande aglomeração de pessoas. O curso de formação dos oficiais tem duração de dois anos e é bastante focado em orientar os policiais quanto à forma de agirem frente a grandes manifestações.Foto 2 - Kamila Mendonça

Os profissionais da Tropa de Choque recebem uma instrução específica do comando para atuarem de modo a proporcionar o menor risco possível, tanto para o policial quanto para a população. “Temos uma formação específica para isso. Zelamos pela condução pacífica das pessoas. No curso preparatório, os policiais militares não são orientados a proibir as manifestações, mas a olhar pela segurança do patrimônio público e das pessoas”, esclarece.

Mas essa preparação nem sempre é aplicada nas ruas. Quando se iniciaram os burburinhos sobre o aumento da passagem do transporte coletivo em Goiânia, em maio, o estudantes transformaram o Terminal Praça A, no Setor Campinas, em palco de protestos. O tumulto começou quando os manifestantes colocaram fogo em pneus na Avenida Anhanguera, para bloquear o trânsito ao redor do terminal. Apesar de ter orientação para agir reduzindo o risco para ambas as partes, no decorrer do protesto, um policial militar desferiu um soco no rosto de um dos manifestantes.

Kamila Mendonça, publicitária, presenciou por diversas vezes violência entre as partes. Num dos confrontos ocorridos na Praça Universitária, região onde mora, ela conta que presenciou dois policiais agredindo uma garota que não media a metade da altura dos dois homens. “A polícia não tem preparação para lidar com muitas situações, isso vai além dos recentes protestos. Na verdade, não tem conversa e negociação, são somente agressões”, critica.

De acordo com o coronel, as ações mais violentas ocorrem quando há ataque aos policiais por parte dos manifestantes, que muitas vezes fogem ao controle. Quando a Polícia Militar sai para acompanhar os protestos não há predisposição de deter os ativistas, e sim manter a ordem pública, explica.  “O que está acontecendo por todo país são manifestações pacíficas, no entanto, muitos oportunistas se infiltram nesses movimentos com o intuito de criar o caos. O que a polícia faz é se defender e defender os interesses sociais”.  

Foto 3 - Cel AvelarEmbora as manifestações tenham caráter pacífico, diversos confrontos entre policiais e manifestantes foram registrados em Belo Horizonte, Brasília e no Rio de Janeiro. Goiânia se prepara, mais uma vez, para uma grande manifestação. Quase 72 mil pessoas já confirmaram presença no evento por meio das redes sociais. E, por elas, os manifestantes ensinam formas de se desviarem das agressões das tropas. Um dos exemplos é utilizar a bandeira do país como escudo, uma vez que a polícia não pode valer-se de violência com quem estiver envolvido no manto.

Especialista em Segurança Pública, Ivan Hermano Filho confia na preparação que os policiais recebem, porém ele julga limitada a atuação dos profissionais em eventos como manifestações. O modo como a Tropa de Choque age pode ser considerada arcaica, por não haver um diálogo claro entre o manifestante e o policial, de acordo com o especialista. Por outro lado, não é aconselhado que a polícia não aja, uma vez que existem momentos que é necessária a presença dos profissionais para conter ações de depredações e violência física.

Em outros países uma técnica corriqueiramente utilizada é a demarcação visual que impõem limites de espaço aos participantes de passeatas, usando cordas coloridas. Caso o manifestante ultrapasse o primeiro obstáculo, de cor amarela, é repreendido com jatos d’água; já no segundo limite excedido, sinalizado com a cor vermelha, a política da equipe de policiais é a ação com balas de borracha e outras armas de efeito moral.

Isso, de acordo, com Hermano tornaria mais objetivo o diálogo entre ativistas e policiais. Outro método também eficaz, conforme o especialista, é a utilização de câmeras nos capacetes dos policiais. “É importante frisar que existem formas que a polícia pode atuar melhor, isso implica em deixar claro como será o uso gradual da força”, ilustra.