Hoje quero dividir com vocês um texto brilhante e bem pertinente do excelente Jornalista Elder Dias que foi publicado no site da ESPN.
Sua analíse é bem realista e nos obriga a fazer muitas reflexões.
Segue abaixo a matéria e o link para o texto dentro da ESPN.
http://espnfc.espn.uol.com.br/goias/verde-33/o-goiano-fernandao-merecia-ser-enterrado-nos-pampas
Como esmeraldino, confesso que duas das maiores euforias da minha história de torcedor foram protagonizadas por Fernandão. A primeira, já contei aqui no post anterior, foi seu antológico gol de bicicleta no igualmente antológico Goiás 4 x 4 Bahia, em 1999. A outra foi dez anos depois, quando ele foi anunciado como a mais nova contratação do Verde, que na ocasião estava voando baixo no Brasileiro. Nunca minha autoestima alviverde foi a tal altura — e nós, torcedores do Goiás temos problema com esse lance de estima, graças a uma política crônica da diretoria, mas isso é outro artigo.
Mas, se levada a questão por um viés simbológico, Fernandão, apesar de amar sua terra natal e ter praticamente nascido e crescido na Serrinha, deveria ter tido Porto Alegre como sua última morada. Não que nós, esmeraldinos e goianos, não tenhamos sentido sua morte. Sentimos, sim, e muito.
Nada que se compare ao que vi, li e ouvi sobre a repercussão em terras gaúchas. Foi algoayrtonsennístico, talvez o primeiro velório sem corpo da história do Brasil. Nem o pai da Constituição, Ulysses Guimarães — que nunca teve seu corpo encontrado, coincidentemente após uma queda de helicóptero, em 1992 —, teve tal honraria.
Fui ao Rio Grande apenas uma vez, em 2005. O Internacional disputava o título com o Corinthians naquele malfadado “Brasileiro do Edílson”. Pude sentir nas ruas como o futebol transcende o entretenimento para se tornar uma questão cultural e até geopolítica — lá até quem nunca foi a um jogo, se perguntado, vai dizer que torce para Grêmio ou Inter. E com convicção.
Mesmo assim, me surpreendeu o alcance que tinha Fernandão como ícone. O fato de o próprio Grêmio superar a rivalidade e se solidarizar, colocando sua bandeira a meio mastro, mostra esse impacto.
Costumo dizer que as capas dos jornais, na média, refletem o quadro geral de uma situação. Vejamos o caso então das primeiras páginas deste domingo, dos principais jornais de Goiás e do Rio Grande do Sul. Primeiro, por aqui, as do principal diário, O Popular:
Abra o Link: http://espnfc.espn.uol.com.br/goias/verde-33/o-goiano-fernandao-merecia-ser-enterrado-nos-pampas
Isso quer dizer que os goianos “amavam menos” um filho da terra do que os gaúchos? Os jornais goianos não lhe deram o destaque devido? Não é isso: amavam e amaram como deveria ser. O carinho da torcida esmeraldina por Fernandão na volta ao Goiás, em 2009, mostrou isso.
Mas no Sul não era gostar, não era amor: era devoção. O título de “Capitão América”dado a ele — em referência à conquista da Libertadores — prova isso: o alcance tanto de reverência sobre-humana quando geográfica. Um super-herói do tamanho do continente.
O Sul tem uma cultura própria em relação ao Brasil. Observei, quando estive lá, seu apego às raízes, o zelo pela tradição e o pertencimento à própria terra. Uma herança farroupilha, certamente. Para os colorados, Fernandão assimilou o perfil do forasteiro-herói, umRodrigo Cambará do século 21, que veio para conquistar a terra prometida. Isso se transubstanciou nas conquistas da Copa Libertadores e do Mundial de 2006 e do título moral de 2005. Alguém que faz o milésimo gol dos Gre-Nais logo na estreia era mesmo um predestinado.
Por isso, não me afetaria em nada, como esmeraldino, se Fernandão um dia tivesse seus restos mortais transladados para o Sul. A hipótese é absurda do ponto de vista lógico, mas compreensível se observada com a emoção. Fernandão era muito moço para morrer e não deve ter pensado nisso a sério. Mas, se pudesse falar, uma parte dele gostaria de repousar eternamente no Rio Grande.
Como goiano que sabe admirar o respeito sulista à memória (quem dera fôssemos todos os brasileiros assim), reconheço: assim como o Goiás o revelou para ele se consagrar no Inter, se Fernandão nasceu no Cerrado, foi nos pampas que ele virou lenda.
Elder Dias, do verde 33 (ESPN FC).