Pressão. Tensão. Apreensão. Esses foram os maiores adversários do Goiás na decisão da Copa Sul-Americana. E enfrentou todos eles, e os outros vários elementos que cercaram essa decisão, com muita disposição e vontade, como vinha sendo costume nessa competição. Entretanto no último respiro, o time esmeraldino caiu diante da tradição do maior vencedor da América.

A história não deixou de ter sido feita, mas poderia ter sido escrita com um capítulo final bem mais alegre para o torcedor esmeraldino. Após a derrota no tempo regulamentar por 3 a 1, Independiente e Goiás decidiram o título nos pênaltis. Todos converteram suas cobranças, exceto o atacante alviverde, Felipe, dando a conquista para o time “rojo”.

A “hinchada” do Independiente, que não decepcionou ao mostrar toda sua paixão, voltou a sentir a satisfação que durante muito tempo foi tão presente na história do clube, que durante esse época se consagrou como o “Rei de Copas”. E não só a torcida argentina está feliz, mas também flamenguistas e gremistas. Isso porque a derrota do Goiás faz com que o Grêmio confirme sua vaga na Libertadores em 2011, e dá direito ao Flamengo de disputar a Copa Sul-Americana do ano que vem.

Pressão “roja”

A estratégia do Independiente estava clara. Os argentinos queriam o gol a qualquer custo, e quanto antes melhor. E motivação para isso estava fácil de encontrar, no estádio abarrotado de torcedores apaixonados, que aumentaram ainda mais a pressão sofrida pelo Goiás, desde que o time goiano chegou em Buenos Aires. Entretanto, o time esmeraldino mostrou uma boa postura nos primeiros minutos, mas que não foram o suficiente.

A equipe alviverde buscava o ataque, e não se intimidou no início, mas os argentinos conseguiram se impor. A equipe “roja” se mantinha mais no campo de ataque, e tentava achar algum espaço na defesa alviverde, entretanto muito mais na base da disposição do que na técnica. Os primeiros vinte minutos foram de pressão intensa argentina. Aos 15 minutos o Independiente assustou com um chute de Pato Rodríguez. Três minutos depois a equipe “roja” balançou as redes.

Após cobrança de falta, Matheu recebeu dentro da área e chutou forte, mas Harlei fez uma bela defesa. No rebote, o zagueiro Velázquez apareceu livre para marcar o primeiro dos donos da casa. Mas a festa da “hinchada” durou pouco. Aos 21 minutos Wellington Saci fez boa jogada pela esquerda e cruzou na medida para o artilheiro Rafael Moura cabecear com estilo e colocar o Goiás no jogo. Mas este lance foi esporádico. O time goiano não conseguia dar sequência nas jogadas, e estava visivelmente nervoso em campo.

E a pressão “roja” continuava. E o segundo gol argentino veio rapidamente. E de uma forma que deixou desolado qualquer torcedor esmeraldino. Após lançamento na área alviverde, Ernando tentou afastar e chutou em cima de Parra. A bola encobriu Harlei e morreu no fundo do gol. Um gol no mínimo esquisito. A partida seguiu movimentada, e os argentinos mantinham o mesmo ritmo a todo tempo.

Aos 34 minutos, todo o frenesi e êxtase que os torcedores esmeraldinos curtiam após o primeiro jogo, se tornaram em constante apreensão. Pato Rodríguez lançou na área e Parra dividiu com Marcão e, mesmo caído, conseguiu mandar pro gol, marcando o terceiro do Independiente. A vantagem verde, que parecia difícil de ser quebrada, foi igualada em pouco mais da metade de um tempo. E por pouco o Goiás não vai para o intervalo com três gols de desvantagem. Aos 46 Cabrera entrou na área e chutou cruzado, mas a bola passou rente à trave direita de Harlei.

Goiás melhor

O primeiro lance da segunda etapa deu a impressão errada de que o Independiente seguiria abafando a equipe goiana. Logo aos dois minutos Battión lançou Parra dentro da área, e chutou cruzado de esquerda, mas Harlei fez uma excelente defesa. O Goiás, ao contrário da primeira metade do jogo, teve uma postura mais agressiva. Um gol em qualquer lado decidiria o jogo, o que tornava a partida ainda mais tensa a qualquer momento.

Aos seis minutos Otacílio Neto cobrou uma falta com perigo e a bola passou perto da trave de Navarro. O Goiás voltou mais solto para a segunda etapa, dando impressões de que ignorava a torcida argentina, que não se calava. O time estava mais calmo, e começou a acertar os passes. Em contrapartida o Independiente não conseguiu imprimir o seu ritmo. As principais opções de ataque do “Rei de Copas” eram as jogadas de linha de fundo, e chutes de longa distância, mas Harlei pouco trabalhou.

Aos 18 minutos o torcedor esmeraldino teve o grito de gol fresco na garganta, mas não conseguiu extravasá-lo. Rafael Moura recebeu de Carlos Alberto dentro da área, fintou dois marcadores adversários e armou o chute. Um lance lindo, para marcar um gol que coroaria o artilheiro o principal jogador do time na competição. Mas o He-Man chutou em cima do arqueiro argentino, e desperdiçou a melhor chance goiana até então.

O jogo seguia com um panorama mais favorável ao Goiás, mas o verde não soube aproveitar. O Independiente não tinha o mesmo ritmo, e parecia cansado. Os goianos ainda tiveram ótimas chances com Rafael Moura, aos 39 minutos, em um chute forte da esquerda, e aos 45 minutos, quando o camisa nove recebeu cara a cara com Navarro, mas precipitadamente chutou para fora, e a decisão foi para a prorrogação

Tensão por mais 30 minutos e delírio “rojo”

Um título histórico deve ter sua dose de emoção. E a prorrogação sempre dá esse tom dramático às decisões. A apreensão, expectativa e tensão do tempo regulamentar cresceram exponencialmente nos tempos adicionais, ainda mais com a superioridade do Goiás. O Independiente estava claramente desgastado fisicamente. Aos cinco minutos Felipe, que entrou na segunda etapa do tempo regulamentar, quase marcou com um chute forte cruzado, e a bola pegou na trave.

Os argentinos não tinham força pra atacar, e apenas queriam administrar o jogo para levar a decisão para os pênaltis. O Goiás buscava a todo o custo o gol que o colocaria em grandes chances de conquistar a taça. A segunda etapa da prorrogação deixou ainda mais clara esse panorama. Como se diz na gíria do futebol, o Independiente estava “morto” em campo, não agüentava disputar uma bola. Entretanto, mesmo com toda a tensão a torcida argentina não se calou.

Logo no primeiro minuto da segunda etapa da prorrogação, Tolói cabeceou uma bola na trave. Três minutos depois Marcão aumentou ainda mais o número de lances para os esmeraldinos lamentarem incansavelmente. O zagueiro aproveitou cobrança de escanteio e cabeceou para o gol, balançando as redes de Navarro, entretanto o assistente marcou o impedimento do jogador. A partida seguiu com o mesmo cenário e esse momento histórico para o Goiás teria mais um capítulo dramático com a decisão nos pênaltis.

Entretanto toda a superioridade física, técnica e até mental mostrada nas prorrogações, foram toalmente apagadas nas cobranças de penalidades. O Independiente foi mais objetivo. Velázquez, Parra, Matheu converteram as cobranças para o time argentino. Tolói, Éverton Santos e Rafael Moura fizeram para o Goias. Mas Felipe mandou a bola na trave, e deixou para Tuzzio a responsabilidade de marcar o gol que reacenderia as esperanças da torcida argentina, que há 15 anos espera voltar ao grande cenário internacional. E ele não decepcionou, balançou as redes, para delírio do “infierno rojo”.

FICHA TÉCNICA – INDEPENDIENTE x GOIÁS

Local: Estádio Libertadores de América, em Avellaneda (Argentina)
Data: 08 de dezembro de 2010, quarta-feira
Horário: 22 horas
Árbitro: Oscar Ruiz (Colômbia)
Auxiliares: Abraham González e Humberto Clavijo (ambos colombianos).

INDEPENDIENTE: Navarro; Velázquez, Tuzzio, Matheu e Mareque; Cabrera, Battión, Rodríguez (Gracián) e Fredes (Maxi Velázquez); Martinez (Gómez) e Parra
Técnico: Antonio Mohamed

GOIÁS: Harlei; Ernando, Rafael Toloi e Marcão; Douglas (Éverton Santos), Carlos Alberto, Amaral, Marcelo Costa e Wellington Saci; Rafael Moura e Otacílio Neto (Felipe)
Técnico: Arthur Neto.

Gols: Velázquez 19′ 1ºT, Parra 26′ 1ºT, 34′ 1ºT (Independiente) / Rafael Moura 21′ 1ºT (Goiás)

Cartões amarelos: Velázquez, Tuzzio, Matheu, Navarro (Independiente) / Rafael Moura, Rafael Tolói (Goiás)

Cobrança de pênaltis: Velázquez, Parra, Matheu e Tuzzio converteram para o Independiente. / Tolói, Éverton Santos e Rafael Moura converteram para o Goiás. Felipe errou.