Sexta-feira era o dia dela. Todas. Não importava o que eu fizesse no sábado ou domingo, mas a sexta tinha que ser dela e fim, sem discussão. Foi algo que se estabeleceu naturalmente com o tempo, sem qualquer tipo de imposição. Simplesmente foi acontecendo e acabou por ficar assim, fazendo com que os outros dias da semana se transformassem em uma mera e agonizante sala de espera.
Aquela era mais uma delas. Como sempre, cheguei 10 minutos antes do combinado. Estacionei em sua porta e buzinei. Sabia que ela não estaria pronta, mas mesmo assim chegava antes só pra ver ela sair apressada, trocando uns passinhos miúdos e afobados que acentuavam ainda mais seu charme natural. Era o único momento em que não havia nada e ninguém entre eu e ela, a não ser o curto caminho entre a porta da casa e o carro.
De salto naquela noite, ela demorou alguns segundos a mais para entrar no carro, o que me deu um tempo extra para apreciar seu desfile particular. Até por isso, essa cena nunca saiu da minha cabeça. Quando chegou, abriu a porta, sorriu e me cumprimentou com um beijinho na boca. Perguntou como havia sido meu dia, colocou a mão no meu ombro e me olhou com uma ternura tão singular que parecia prever o que estava por acontecer.
Eu não. Aliás, jamais esperava. A única coisa que passava pelos meus pensamentos era fazê-la feliz, principalmente naquele momento. Coloquei a música favorita dela e deixei o volume numa altura que nos permitisse apreciar a melodia e ao mesmo tempo conversar sobre qualquer coisa. As ruas estavam mal iluminadas e apenas as luzes acessas no painel nos separava da escuridão total. Esse foi nosso último, porém infinito, universo.
Estávamos a poucas quadras do nosso destino. Havia reservado a melhor mesa de um restaurante japonês e o vinho da melhor safra disponível. Dobrando a esquina veio uma caminhonete em alta velocidade, na contramão. Não deu tempo nem de pensar e tudo aconteceu. Um barulho ensurdecedor, luzes em todas as direções e um grito. De imediato olhei para o lado, algumas ferragens e o breu.
Acordei depois em um hospital, não lembrava de muita coisa e nem queria. Só queria saber dela. Desesperado chamei a enfermeira e, ali mesmo, naquele exato instante, eu morri. Morri, de alma, de espírito, de coração. O que ficou foi apenas meu corpo e a solidão. Dura, implacável e aterrorizante. Desde então foi a minha fiel companheira. Não teve um segundo sequer em que pude andar sem que ela assombrasse os meus passos.
Mas essa seria a nossa última noite, como foi aquela. Diante de mim um copo de uísque irlandês e a garrafa no fim. Ao lado, o anel dela. O anel que selaria para sempre nossa vida juntos mas que nunca esteve em seu dedo. Segurei-o firme e fechei os olhos. Abri a gaveta da mesa, e escutei aqueles passinhos apressados de novo. Engatilhei, os passos foram ficando cada vez mais altos e mais próximos de mim. Encostei o dedo, senti o cheiro do perfume dela… De repente, ela abriu a porta do carro, e sorriu. Enfim, eu estava com ela de novo.











