Fica a dica

Fica a dica!  Como o próprio nome já diz, é nosso espaço para sugestões. Vamos garimpar dicas de filmes, livros, discos, locais e qualquer outra coisa que consideramos importante para você, nosso ouvinte. A dica de hoje é o documentário cinco câmeras quebradas. Dirigido pelo palestino Emad Burnat e pelo israelense Guy Davidi. 

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Cinco câmeras quebradas

Em 2005, uma pequena cidade na Cisjordânia foi dividida por um muro, construído pelo governo israelense. Com o argumento oficial de proteger um povoado das redondezas, eles prepararam o terreno para a tomada de posse de 150 mil judeus israelenses. Mas o agricultor Emad, morador da região, decidiu armar-se de uma câmera e de formas pacíficas de protesto para tentar conservar suas terras.

O resultado disso é o documentário Cinco Câmeras Quebradas. Dirigido pelo palestino Emad Burnat e pelo israelense Guy Davidi, o filme foi indicado ao Oscar de melhor documentário, e recebeu o prêmio de direção no festival de Sundance em 2012. Trata-se de um dos mais assombrosos testemunhos já realizados pelo cinema.

O filme entrou em cartaz no Cine Cultura desde o final de semana passada e já provoca discussões na Capital. Durante as filmagens da produção, Burnat teve seus equipamentos quebrados por cinco vezes. Bombas de gás lacrimogêneo, balas de borracha e até um acidente de trator não o impediram de seguir sua jornada, como descreve no filme.

Algumas ONGs francesas ajudaram-no a comprar câmeras novas. Mesmo que a maioria das manifestações exibidas no documentário seja pacífica, o clima de guerra está imerso na intimidade do filme. Entre as primeiras palavras de seu filho Gibreel, estão “cartucho” e “exército”. Para quem gosta de documentários que discute geopolítica e necessidade da cultura de paz, é um bom filme para ser visto, e, porque não, revisto.

Uma das curiosidades do longa-metragem é a presença das referências brasileiras na produção. Algumas bandeiras pela casa de Burnat, um adesivo em uma de suas câmeras e um manifestante com a camisa do Palmeiras explicam-se por Soraya, esposa do protagonista nascida no Brasil.

            Como um quê de desesperança, uma das cenas mais profundas se inserem no contexto das manifestações sociais e políticas. Em certa parte do filme, os moradores da cidade vão em direção ao muro gritando contra a sua construção e pedindo a saída dos israelenses, e são recebidos pelos soldados judeus com bombas, tiros e prisões.

Durante as filmagens, amigos do agricultor foram atingidos, presos ou mortos e suas câmeras foram quebradas por tiros ou bombas.  Mesmo com as câmeras durando menos de um ano, o diretor não interrompeu as filmagens, que continuam até hoje. Ele é o retrato vivo de uma região que não agüenta mais viver em clima de guerras e mudanças sociais e políticas.

Apesar disso, sua mulher, Soraya, pediu para que parasse de gravar, temendo o futuro dos filhos, dela mesma e do marido, que havia sofrido um grave acidente de carro e sido preso por semanas em Israel, ela pediu para que ele não fosse mais aos protestos. Cinco Câmeras Quebradas é o relato lírico do conflito pelos olhos de um palestino que ganhou forma e voz na união com um israelense.