Empresários do setor de transporte nunca fizeram muita questão de diferenciar suas cargas. Levam e trazem gente e gado com a mesma brutalidade. Se os donos de ônibus tivessem limpa-fossas, para eles tanto faria o conteúdo dos ônibus ou dos tanques. Eles tratam tudo com igual desprezo. Mas parece que o chicote está voltando ao lombo dos que mandaram bater. Até os políticos, sempre tão alheios ao problema e amigos dos empresários, sumiram dos barões dos ônibus. O próprio governo estadual, um dos maiores proprietários, foi alvo de protestos inflamados.

Enfim, a população acordou. Por décadas, sofreu em currais, que têm esse nome exatamente por serem réplicas dos embarcadouros de frigoríficos.

É exatamente o que querem os empresários.

É exatamente o que desejam os políticos que os protegem. Eles marcam a parte que vai comer capim. E fuzilam os que vão comer capim pela raiz.

É exatamente como os empresários e seus protetores querem o usuário de ônibus, ou pastando ou aniquilado.

 

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Felizmente, os movimentos ressuscitaram o ânimo de quem achava que ia morrer sem assistir à derrota dos empresários. Por enquanto, a vitória do povo ainda é mera possibilidade, mas ao menos se pode aguardá-la.

Carregar humanos de forma desumana é excelente negócio para o patrão de quem transporta e péssimo para quem é transportado. Em Goiânia, os ônibus carregam em média 60 passageiros por viagem, pois há trechos com centenas e outros com poucos.

O litro de óleo diesel está na faixa dos 2 reais e 30 centavos e ônibus faz três quilômetros por litro.

As linhas em Goiânia têm até 20 quilômetros de extensão, como as que vêm de Goianira e Trindade, mas a média dos passageiros viaja por três quilômetros nas linhas alimentadoras. Quando o espaço é longo, a Metrobus se encarrega de completar.

Feitas as contas, se nota a razão do sucesso financeiro das empresas. Menos de oitenta centavos para carregar 60 clientes por quilômetro. Cada cliente paga 3 reais para andar a média de três quilômetros. Ou seja, 180 reais de faturamento e 2 reais e 30 centavos de gasto com combustível. Nem a prostituição rende tanto. Os cafetões tentam desmoralizar essa conta inflando as médias, mas esbarram num troço chamado realidade. E a realidade é que, somadas as despesas com pessoal e manutenção dos veículos, seu lucro ainda é o mais estupendo em todos os ramos de negócio, incluído o tráfico de drogas. Aliás, foi exatamente nisso que deixaram o transporte coletivo de Goiânia se transformar, numa droga. Ser dependente de crack é o fim. Depender de ônibus é um sofrimento sem fim.