No dia 6 de fevereiro de 1694, a guerreira Dandara dos Palmares, heroína quilombola no Brasil, se jogou de um penhasco para não ser capturada e retornar à escravização. As informações catalogadas oficialmente sobre a vida da companheira de Zumbi dos Palmares foram obtidas por meio da história oral, principalmente das comunidades dos quilombos.

A historiografia oral é uma metodologia de pesquisa científica que faz uso de fontes orais, coletadas por meio de entrevista oral gravada, em diferentes modalidades. A falta de documentos históricos, somada à desconsideração da luta dos negros por liberdade, por parte da história oficial da época, ocasionou um apagamento histórico por séculos e consequente transformação da figura de Dandara em mitos e lendas.

A figura de Dandara resistiu aos ataques à sua memória, permanecendo viva no imaginário popular e na tradição oral por meio de cantigas centenárias da capoeira, na literatura de cordel e nos festejos populares. Com o crescimento dos movimentos negros a partir da segunda metade do século XX, o legado de Dandara passou por um processo de resgate histórico.

Vida no quilombo

Embora as informações sobre a trajetória da guerreira quilombola não sejam precisas, a principal hipótese é de que ela tenha nascido no ano de 1654. Não há consenso científico a respeito do local de nascimento, que pode ter sido no Brasil ou no continente afriano. 

Dandara foi acolhida quando criança no Quilombo dos Palmares, o maior entre todos os estabelecidos no Brasil. Localizado na Serra da Barriga, atual estado de Alagoas, mas que à época pertencia à capitania de Pernambuco, o local chegou a abrigar aproximadamente 30 mil habitantes. No mesmo período, a cidade de São Paulo tinha uma população inferior a 10 mil habitantes.

Palmares se consolidou como uma sociedade autônoma e multicultural, com uma estrutura hierárquica, mas pautado pela cooperação entre todos. O centro político do quilombo era o Mocambo do Macaco, onde vivia quase um terço da população. Atualmente, o local está situado no município de União dos Palmares, na zona da mata alagoana, a 70 quilômetro de Maceió.

Pedra com inscrições no memorial do Quilombo dos Palmares, no sítio original de Macaco (Foto: Mirla Dâmaso/Wikimedia Commons)

Liderança e resistência

Dandara era uma das principais líderes do quilombo, dominava técnicas de luta por meio da capoeira e manuseava armas com precisão. Ela também é apontada como importante estrategista para a população do Quilombo de Palmares, participando da elaboração de táticas de defesa. Dandara era casada com o guerreiro Zumbi Palmares, sobrinho de Ganga Zumba, o chefe do quilombo. Ela também auxiliava na caça, método fundamental para a sobrevivência dos habitantes, além de atuar na produção de alimentos por meio de lavouras.

Repressão colonial

Com forte capacidade de organização e em constante crescimento, no final do século XVII o Quilombo dos Palmares se tornou um dos principais focos do aparato repressor da colônia portuguesa. Naquele período, o açúcar, principal mercadoria que orientava a economia do Brasil colonial, já enfrentava decadência e daria lugar ao ouro de Minas Gerais logo no início do século XVIII.

Diversos ataques portugueses foram realizados com o objetivo de destruir o quilombo. Em 1677, uma expedição liderada por Fernão Carrilho matou um filho de Ganga Zumba e sequestrou outros dois. O líder de Palmares negociou um armistício em que os nascidos no Quilombo seriam libertados, mas os escravizados fugidos seriam devolvidos aos engenhos.

Crise interna

A medida gerou revolta na população, liderada por Dandara, que não aceitou a volta ao regime de escravização. Em 1678, Ganga Zumba foi morto e Zumbi assumiu o poder em Palmares e rompeu o acordo com os portugueses. Pelas próximas duas décadas, Dandara e Zumbi comandaram a resistência do quilombo, lutando contra os ataques das tropas portuguesas. 

Em 6 de fevereiro de 1694, a capitania de Pernambuco enviou um exército de cerca de 10.000 soldados, que realizaram um massacre e dizimaram o Mocambo do Macaco. Os sobreviventes foram devolvidos ao trabalho escravo nos engenhos da região. Encurralada pelos soldados, Dandara preferiu se jogar no abismo do que ser submetida à escravidão. Zumbi dos Palmares fugiu e conseguiu permanecer escondido até o fim do ano seguinte, quando foi morto em uma emboscada. 

Reconhecimento

A memória de Dandara foi celebrada por filmes, sambas-enredos e livros. Em 1984, o filme Quilombo retratou a história do Quilombo e de Dandara, sendo premiado no Festival do Cinema de Cartagena, Colômbia, e no de Miami, nos Estados Unidos. A obra também foi indicada para a Palma de Ouro, no Festival de Cannes. Em 2019, Dandara foi oficialmente reconhecida como Heroína Nacional, tendo seu nome inscrito no Livro de Aço do Panteão da Pátria.

Com informações de Pensar História.

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