Nesta semana o presidente Jair Bolsonaro (PSL) teve a confirmação de que um presidente da República não pode jogar palavras ao vento. A divulgação de um vídeo com imagens obscenas gravadas durante o cortejo do Blocu, em São Paulo, em sua conta no Twitter, na terça-feira de carnaval (5), e seu discurso em evento dos fuzileiros navais no Rio de Janeiro, na quinta-feira (7), deu trabalho a seus assessores e arranhou sua imagem.
Os assessores se preocupam com o “esvaziamento” da fala presidencial, daí saíram em seu socorro duas vezes nesta semana. Uma nota divulgada na quarta-feira (6) pelo porta-voz da presidência, general Otávio do Rêgo Barros, tentou minimizar a repercussão negativa do post. Na quinta-feira, os generais tiveram de voltar a ajudar o presidente. No evento no Rio de Janeiro, Bolonaro disse que “democracia e liberdade só existe (sic) quando a sua respectiva (sic) Forças Armadas quer”.
A fala foi entendida como um recado autoritário do presidente, que formou um governo com a participação, até agora, de mais de 100 militares das três forças. À noite, o presidente fez uma live no Facebook para se explicar. Apareceu ao lado dos generais Augusto Heleno, ministro do Gabinete de Segurança Institucional, e do porta-voz Rêgo Barros. Precisou da tutela dos dois para dizer que foi mal interpretado. Quis dizer outra coisa e explicou-se: “no Brasil, nós devemos às Forças Armadas nossa democracia e nossa liberdade.”
Na era digital, diferentemente do que possa parecer, a palavra ganha mais força. Ela fica gravada e guardada nas nuvens de servidores que alimentam a internet. Que o diga o ex-governador Marconi Perillo. Na segunda-feira (4) estreou no cinema em Goiânia o documentário Parque Oeste, da diretora Fabiana Assis. Ele conta a história da ocupação de uma área no Parque Oeste Industrial, na região sudoeste de Goiânia, em 2004, e sua desocupação violenta pela Polícia Militar, em fevereiro de 2005.
O ponto de partida do documentário é um áudio do então governador, Marconi Perillo. “Falei com o prefeito, com o secretário de Planejamento da Prefeitura, pedi para ele agilizar as providências de ponto em ponto com o proprietário [da área], que o proprietário deve quase R$ 2 milhões de IPTU. E falei com o prefeito [de Goiânia], Pedro Wilson. Sugeri ao prefeito que ele tomasse as providências, que ele mesmo desapropriasse. Quem tem de desapropriar é a prefeitura. O que eu tenho de fazer aqui e agora é garantir que eu não vou mandar a polícia. Se for algum policial lá, algum comandante lá, vai ser demitido. Eu não aceito… Certo. Então essa é uma decisão que está tomada”.
As mais de 3 mil famílias acampadas na área entenderam a fala do governador como um sinal verde. “Aqui tinha uma cidade de lona. No dia seguinte à declaração do governador, começaram a chegar caminhões de material de construção e isso se transformou em uma cidade de tijolo”, disse Eronilde Nascimento, viúva de Pedro Nascimento, morto durante a desocupação, e líder do movimento. (Confira o trailer do filme).
O documentário parte dessa fala e conta a história da violenta desocupação, com saldo de 800 pessoas detidas, 14 pessoas feridas e dois mortos. As fortes cenas do cinegrafista inglês, Brad Will, com choros de crianças, gritos de homens e mulheres, barulho de bombas e de tiros dão força para uma narrativa contada a partir do discurso político. Moral da história: uma autoridade tem de medir as consequências de suas palavras.
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