Comodidade. Parte de usuários, que pode e quer, opta pelo conforto da poltrona e transforma o comércio eletrônico na principal ferramenta aquisitiva de entorpecentes. O maravilhoso e democrático mundo virtual – acessado por 94,2 milhões de internautas tupiniquins – virou o paraíso das drogas. Por meio de sites, fóruns de discussão e redes sociais, como Facebook, Twitter e Orkut, os criminosos assediam possíveis clientes, recebem encomendas e prometem a entrega, na maioria das vezes por Sedex.

A maior parte das homepages é da Holanda, onde o comércio é liberado, ou de Estados estadunidenses, do Canadá e da Austrália, onde é legal o consumo em pequenas proporções. As polícias alertam que a encomenda, mesmo para uso particular, caracteriza crime. A questão é que, ao menos em Goiás, as forças de repressão não estão focadas no combate ao tráfico da web.

Não que a opção seja por negligência, mas por falta de know-how, pessoal e verbas. Nestes contextos e em território goiano, as polícias Federal e Estadual estão, praticamente, focadas nos fornecedores de fronteiras, traficantes urbanos e suas ramificações. O tráfico doméstico, aquele que acontece dentro dos limites de Goiás, é de responsabilidade da Estadual, que mantém um núcleo, com cinco delegados e 20 agentes.

Olhadelas

É realidade que dois policiais da Delegacia Estadual de Repressão a Narcóticos (Denarc) estão plugados na internet, mais como apoio aos casos em andamento e monitorando páginas denunciadas pela população, por intermédio do 197, do que apenas na busca por cibertraficantes. O titular da Denarc, delegado Odair José Soares, revela que todo policial da Narcótico possui páginas falsas na rede social.

Este expediente, aliás, resultou na prisão de Luiz Cláudio Martins Xavier e no desmantelamento do seu laboratório para refino de drogas, na madrugada do último dia 8 de março, em Aparecida de Goiânia. Luiz Cláudio era funcionário de um reeducando da Penitenciária Odenir Guimarães (POG), conhecido por Xará. O traficante foi descoberto a partir de um número telefônico fornecido durante uma conversa em uma rede social. Aliás, a dona da fan page foi presa duas semanas mais tarde, com um carregamento de uma tonelada de maconha, em Trindade.

Derrama
 
A entrada da droga na internet é menos por sobrevivência e mais por excesso de concorrentes no mercado físico. A tese é de Odair José, que em 2012 confiscou três fazendas, 50 carros, quatro casas, um apartamento, uma chácara e R$ 200 mil em dinheiro. Além de destruir 15 laboratórios de refino de drogas e prender 180 traficantes. Uma realidade advinda de apreensões – 4,1 toneladas de maconha, 600 quilos cocaína, três mil comprimidos ecstasy e 210 tubos de lança perfume – quatro vezes maiores do que as ocorridas em 2011.

O titular da Denarc esclarece que nos últimos 15 anos, a geografia do narcocultivo foi redesenhada e o controle passou para as mãos dos carteis mexicanos, considerados mais violentos do que seus antecessores colombianos, Cali e Medellín. Atualmente, os maiores produtores de cocaína são Peru, Colômbia e Bolívia; os de maconha são México, Paraguai e Bolívia.

“Noventa e nove por cento da cocaína produzida no mundo tem origem em solo latino-americano”, informa Odair José. Além da nova reconfiguração, a polícia tem conhecimento de que maior parte dos colaboradores da rede é paga com drogas. Tudo por que há um volume excessivo de drogas. Antes, o transportador da droga recebia em dinheiro. Hoje, o pagamento é em droga. “Tem muita gente vendendo, pois tem muita droga no mercado.”

Farmácias

O último relatório da Junta Internacional de Fiscalização de Entorpecentes (JIFE), órgão independente das Nações Unidas, divulgado no primeiro semestre de 2012, revela que a venda ilegal de drogas pela Internet tem como público alvo a juventude. As chamadas farmácias virtuais buscam atrair uma gama cada vez maior de consumidores, principalmente jovens, por meio da veiculação de publicidade nas mídias sociais, tornando o uso desses entorpecentes atraentes a essa faixa etária.

Cada vez mais, as farmácias virtuais vendem drogas ilícitas e medicamentos sem a exigência de prescrição médica. O relatório alerta para os riscos à saúde que a compra desses medicamentos pode gerar. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), mais da metade dessas substâncias é falsificada. A venda de medicamentos on-line vem crescendo e ganhado força no mundo inteiro. Relatório, em 2010, das mais de 12 mil apreensões de substâncias controladas internacionalmente e enviadas pelos correios, 6,5 mil foram de substâncias lícitas sob controle internacional e 5,5 mil de origem ilícita.

Internet profunda

A internet é como se fosse um iceberg. A ponta dele, que significa cerca de 10% de toda a massa, é a rede utilizada pela maioria, com a ajuda do Google. Totalmente rastreável. É a internet de superfície. A outra porção está na Deep Web, que por sua vez está estruturada em camadas. Para acessá-la é preciso instalar um programa específico, o TOR. A conexão é lenta, devido ao excesso de criptografias. O Google do espaço é o Hidden Wiki, no qual se pode buscar o assunto que interessar, sem qualquer tipo de bloqueio social, moral ou o que for. Tipo de pesquisas que mostram que algumas pessoas nem sequer podem ser chamadas de humanas.

E aí que estão os pacotes sobre drogas e medicamentos sem receitas. E nem precisa pagar em dinheiro: a transação é feita com créditos chamados Bitcoins, uma moeda virtual baseada em P2P que garante o anonimato entre as partes. A questão é se serão ou não entregues. Na DW a probabilidade de entregas são maiores do que na internet de superfície, considerando os fóruns.