Em 2005, Sol e Fábio viveram o mesmo drama: entraram ilegalmente nos Estados Unidos e foram deportados. Enquanto o folhetim de Glória Perez denunciava ao grande público brasileiro que a travessia pelo deserto existia e trazia um panorama de como acontecia com a história da personagem, Fábio conhecia o drama fictício de Sol na vida real.

Os Estados Unidos estão dentro de uma área do mapa-múndi na qual existe mais de um gentílico e o grande território ainda é separado pelos subcontinentes Sul, Norte e Central. Mas, por levar oficialmente o nome dado pelos europeus séculos atrás para designar que tais terras que englobam as três partes não faziam parte do continente asiático, é ainda hoje – como em 2005 – chamado de “América”.

Muitos brasileiros sonham com as possibilidades que a “América” oferece para construir uma boa qualidade de vida. Esse foi o ideal que Glória Perez deu à Sol, personagem que a atriz Deborah Secco interpretou na novela produzida e transmitida pela TV Globo há vinte anos.

Também vinte anos atrás, alcançar essa qualidade de vida foi o ideal que levou Fábio a enfrentar a travessia do México para os Estados Unidos três vezes. O que aconteceu na vida dele entre 2005 e 2009 está marcado na sua história e não imaginava que tiraria da cabeça tão cedo. Na manhã de uma quarta-feira de abril sentou numa cadeira e começou a contar sua história, que diferente da escrita por Glória Perez, não é uma ficção.

Percepção da realidade

Fábio Antônio de Jesus vivia em Goiânia, tinha dívidas e o desejo de quitá-las. Sua maneira de alcançar esse objetivo estava toda no seu trabalho de ajustador de marmoraria e foi justamente na sua área de serviço que a oportunidade nos Estados Unidos surgiu. Fernando tinha uma marmoraria em San Diego, cidade da Califórnia, e deu à mãe que morava em Goiânia a missão de encontrar os melhores ajustadores de Goiás.

O goiano guarda em sua memória tudo que vivenciou após a missão da senhora ter tido muito êxito: “ela achou eu aqui e achou um rapaz de Uruaçu chamado Divino”. Tentaram obter o visto e não conseguirem, então foram pelo México com a orientação de Fernando. Fábio saiu de Goiânia, voou de São Paulo e chegou num grande aeroporto mexicano com uma única infomação: fora do aeroporte deveria encontrar um rapaz com uma placa com o seu último nome “Jesus”.

Ali começou a cair aos olhos de Fábio algo inimaginável na realidade da vida que vivia em Goiânia e iniciou o seu sofrimento. À sua frente tinham pessoas a quem deveria pedir ajuda caso precisasse, mas logo ao passar pela imigração descobriu que não eram pessoas confiáveis. O baque ocorreu quando um primeiro atendente quis saber o que ele estava fazendo no país.

Sem poder falar que estava indo para os Estados Unidos, respondeu que foi conhecer o país e mesmo sob o olhar desconfiado que viu no rapaz, teve o seu passaporte carimbado. Mas ao sair do local foi abordado por um policial federal que o direcionou para uma sala. 

“Ali começaram a me roubar”. A lembrança com uma indignação não resignada trouxe também à memória o nervosismo ao viver a situação, em que de um policial para outro, mesmo de patentes superiores, todos levaram seu dinheiro. E foi liberado. Dentre as coisas que se aprende ao fazer uma travessia uma das primeiras é não reclamar.

Nervoso e com medo, não teve qualquer tipo de consolo do rapaz que o esperava. Ao falar que havia sido roubado, recebeu um puxão de braço para sair o mais rápido possível dali e foi levado para o hotel. Ainda desorientado por causa da situação, contou ao patrão o que havia ocorrido e do outro lado da linha ouviu: “no México você vai encontrar muitas coisas que não são fáceis, porque você está fazendo uma travessia”.

Primeira deportação

Com a falta de segurança na polícia, Fábio começou a ficar com medo e daquele momento em diante já não confiava em mais ninguém porque parecia que todo mundo que o olhava queria roubá-lo. Enquanto adentravam cidades mexicanas com instruções de Fernando, pensava que se a polícia federal tinha roubado todo o dinheiro dele, o encontro com a polícia convencional seria igual ou pior. 

A primeira tentativa de atravessar a fronteira ilegalmente foi orientada pelo patrão, que dava ordens para entrar em determinado ônibus e ir para tal cidade. Com sucessivos embarques e desembarques e sem nem recordar todos os lugares pelos quais passou, chegou em Tijuana, cidade da fronteira entre o México e os Estados Unidos.

Se conseguisse fazer a travessia ali já entraria em San Diego, para onde estava indo. Mas ele e Divino foram presos. Viajaram por quarenta e oito horas até a Cidade do México, capital do país, permaneceram presos ali por um período entre dois e três meses e foram deportados pela primeira vez.

Coiote

México e Estados Unidos são separados por uma fronteira de 3,1 mil quilômetros do Oceano Pacífico ao Golfo do México e que em sua extensão passa por vários estados mexicanos e estadunidenses, num percurso que atravessa diversos tipos de terrenos. São áreas urbanas onde o controle exige documentação legal e outras como o Rio Grande e o deserto de Sonora.

A segunda tentativa de Fábio e Divino foi pelo rio. Desta vez, além da orientação de Fernando, a travessia teve o auxílio de um coiote – guia que leva imigrantes até a fronteira ou traficante de pessoas, segundo o dicionário do governo dos Estados Unidos. Na primeira subida sozinhos estavam conscientes de que estavam fazendo uma travessia para entrar ilegalmente nos Estados Unidos, só não tinham noção de todos os riscos que iriam enfrentar.

Na nova tentativa Fábio já sabia, mais ou menos, como as coisas aconteciam no México. Por isso, após ser deportado, quando Fernando perguntou se ainda tinha coragem de ir, ele respondeu “tenho”. Foi quando soube que dessa vez iria com um coiote. A diferença entre uma experiência e outra é que ele entendeu que a corrupção no México era muito maior do que imaginava até aquele momento. 

Consciência da corrupção

Após a deportação, Fábio e Divino ficaram em São Paulo sob os cuidados de um coiote. Alojaram-se num hotel por um mês. “Porque nós não estamos subindo?”. Quis saber. A resposta é que o coiote estava esperando a época certa para passá-los dentro do aeroporto no México com o pessoal que faz o carimbo e com os policiais federais que faziam parte da organização. Quando subiram se impressionou com a tranquilidade.

Olharam o passaporte e já sabiam quem ele era. A polícia não colocou a mão nele dessa vez. Compreendeu que tudo ali envolvia dinheiro. Começou um processo que já conhecia, saindo de uma cidade para outra sucessivamente, dessa vez sempre levado. Na penúltima parada ficou numa sala muito grande onde havia muitas pessoas.

O grupo foi levado para um galpão no meio de uma favela localizada perto da fronteira. A estrutura era tão grande que qualquer helicóptero a notaria, mas Fábio recorda-se que o comboio de seis carros tipo Blazer que os transportava era escoltado por duas viaturas da polícia convencional, uma ia à frente e a outra seguia atrás. 

Fábio já entendia que ali havia alguma coisa errada por causa da corrupção policial, mas se escandalizou uma vez mais e ficou fora de si quando, no galpão, viu a estrutura pela qual a organização manuseava a “Marijuana”. Avistou um corredor de mais ou menos noventa centímetros onde uma bobcat (minicarregadeira) semelhante a uma escada que parecia uma sanfona passava os tabletes de maconha enrolados com fitas amarelas até no teto. 

No fundo do galpão tinham muitas roupas: calças, camisas, peças íntimas e muito mais. Havia também bolsas de viagens e perfumes de vários países. Morros e mais morros das peças de vestuário até o teto. O motivo é que a partir dali as pessoas só saíam com as roupas que conseguiam levar no próprio corpo. Todo o resto passava a compor os morros.

Fábio também viu uma pilha de passaportes. Mas deixou o dele rente ao corpo porque Fernando já o tinha orientado a não deixar o documento para trás. O documento é confiscado no galpão para que autoridades dos Estados Unidos não identifiquem pelo carimbo por qual fronteira o imigrante ilegal entrou no país.

O goiano colocou três cuecas no corpo, vestiu algumas bermudas, uma calça moletom, uma calça jeans, algumas camisas e levou o passaporte escondido dentro da cueca. Foi tudo que conseguiu colocar no corpo.

Tentativa pelo rio

Ao saírem, por uma boa parte do caminho, Fábio foi o marido de uma jovem que também fazia a travessia. A moça tinha marido e esse a orientou a levar camisinha para que se fosse estuprada que não permitisse que o fosse sem o preservativo. Fábio soube que os estupros aconteciam pelas histórias que ouviu quando ainda estava em São Paulo e sabendo o que iria acontecer acompanhava atento os olhares que os coiotes trocavam entre eles.

Depois que passaram todas as orientações sobre as roupas para o grupo, os coiotes fizeram uma separação entre casados e solteiros, e isso determinava quais mulheres seriam estupradas. Quando pediram para fazer a divisão, a moça segurou a mão de Fábio e ficaram do lado dos casados. Ela passou como esposa dele com seu consentimento e a pedido de um dos coiotes que sabia que a jovem era casada. Assim, se livrou da possibilidade de ser estuprada.

Horas depois de saírem com as moças solteiras, os coiotes voltaram e todos subiram com o máximo de roupas que conseguiam levar no corpo para tentar atravessar a fronteira pelo rio.

Foram escoltados até a margem por policiais convencionais mexicanos e num barco passaram para o território estadunidense. O barco em que estavam possuía uma única boia, então os coiotes prepararam durante a madrugada várias outras boias de pneus rentes à margem.

Desceram do barco e agachados andaram em trilheiro para avançar em solo estadunidense. Mas ao fazerem uma curva na trilha se depararam com um policial da imigração dos Estados Unidos deitado no chão. Todos correram de volta para o rio e tentavam acessar as boias. Fábio e um companheiro conseguiram pular na boia do barco e se salvaram.

As remadas com a mão para avançar rio adentro os distanciaram dos policiais americanos que lá da margem riam deles fugindo de volta para o México. Tiveram que ficar numa região próxima a fronteira que era extremamente perigosa porque havia muitos casos de sequestros, tanto que o local onde ficaram hospedados só era acessado por pessoas que sabiam o código de porta estabelecido pelos coiotes.

Desistiram da travessia pelo rio. O ponto ficou comprometido, então decidiram que tentariam pelo Texas. Para viajar até lá separaram o grupo e nesse momento Fábio deixou de ser o “marido” da jovem, pois já não era mais necessário.

Segunda deportação e telefonema de Ranieri

A caminho do Texas, Ranieri ligou para um coiote para conversar com Fábio. O cara era brasileiro e entrou em contato por intermédio de Fernando. Pelo telefone Fábio soube disso e que podia “ficar tranquilo” que desta vez tudo ia dar certo: “A gente vai separar você e o Divino”. Foi informado.

Uma coisa que logo ficou explícita para os goianos é que as cidades da fronteira são pobres e em sua maioria são favelas. Os moradores reconhecem facilmente quem não é dali e isso deixava Fábio com medo de tudo de modo que “parecia que até um menino queria roubar”.

Sob orientação de Ranieri foram para um motel próximo a uma dessas cidades. Fábio foi roubado. Explicou para Fernando que apareceram uns caras que diziam ser da polícia e o roubou. Estavam sem dinheiro e o patrão ia depositar o valor para a próxima passagem. 

Os goianos precisavam ir ao banco para sacar os três mil pesos, mas Divino não saia do hotel de jeito nenhum: ajoelhava, pedia perdão a Deus e entre lamentos perguntava para o Senhor o que ele foi fazer ali. Diante do sofrimento e dos frequentes roubos dizia ao companheiro: “pelo amor de Deus, eu quero ir embora”.

O desespero de Divino encontrava consolo na esperança de Fábio. Fernando depositou o valor e ele saiu sozinho para sacá-lo. Foi atendido por uma moça e sacou no olhar dela “alguma coisa”. Ao sair do banco, viu que ela já estava com o celular no ouvido, disse a Fernando que ficou desconfiado da situação, mas o patrão relevou a desconfiança dele e achou que ele só estava com medo e que naquele lugar o medo estava fazendo ele imaginar que as pessoas eram todas igualmente corruptas.

Compraram a passagem na rodoviária, mas antes de seguir caminho, Divino foi ao banheiro. As portas da rodoviária eram de vidro e o banheiro ficava do lado de fora. Batidas na porta assustaram a atendente que fez sinal que alguém chamava Fábio lá fora. À paisana, alguns caras com corrente no pescoço mostravam um emblema da polícia, mas ele assinalou que não ia.

Bateram novamente e não tiveram resposta dele, então ouviu a voz de Divino: “Fábio”. O companheiro estava sendo segurado pela gola da camisa. Atrás de um ônibus foram separados. Queriam dinheiro e Fábio disse que não tinha. Então, ouviu: “Você pegou três mil pesos no banco. Você tem dinheiro”. 

Fernando tinha enviado três mil pesos mexicanos e Fábio havia tirado todo o valor do banco. Divino havia ficado com 500 pesos e ele separou o dinheiro das passagens e distribuiu o restante entre os bolsos e a cueca. Compreendeu naquele momento que a máfia na região era fora do normal quando atestou que a moça do banco tinha informado o valor que ele sacou. Tiraram os pesos do Divino e como o ônibus já estava saindo deixaram que seguissem viagem. 

Já era esperado que passassem pelo exército mexicano, Fernando já tinha avisado que passariam por duas barreiras por ser um caminho muito usado para passar mulas – pessoas que estão levando droga. Na primeira barreira tentaram fingir que estavam dormindo, mas mandaram todos descerem do ônibus. 

Os cachorros vistoriaram e liberaram o pessoal para entrar, mas Divino ficou para trás. Um pouco depois ele entrou e disse que os soldados queriam dinheiro para liberá-lo. Como ele não tinha mais, Fábio passou quase todo o dinheiro que ainda restava.

Na segunda barreira desceram todos novamente e depois só subiram no ônibus os que pagaram. Fábio passou todo o dinheiro que ainda restava para os soldados, mas eles mandaram o ônibus seguir e prenderam os dois. Essa foi a segunda prisão no México e depois de cerca de dois meses, passaram pela segunda deportação.

Divino desiste: cem mil reais não paga o sofrimento

Fábio e Divino tentaram entrar nos Estados Unidos pelo México (Fotos: Arquivo pessoal)
Fábio e Divino tentaram entrar nos Estados Unidos pelo México (Fotos: Arquivo pessoal)

Voltaram para o Brasil. Chegaram em São Paulo e Divino imediatamente voltou para Uruaçu. Disse que jamais na vida dele iria fazer a travessia de novo. Fábio sabe tudo que eles passaram e acredita que depois da segunda deportação nem uma proposta de cem mil reais faria o companheiro tentar novamente. Os trechos ditos do que passaram não detalham todos os riscos que viveram.

Dos pouquíssimos mais detalhados, Fábio, Divino, um pastor e uma mulher fizeram um percurso de oito horas dentro de uma carreta que só tinha um buraquinho no assoalho para cada um colocar sua boca e respirar. Quatro pessoas viajando por oito horas numa caixa baixa bem próxima ao chão porque se a polícia vistoriasse a carreta por cima não achava lá embaixo.

Quatro pessoas apertadíssimas num lugar só, gritando que queriam urinar e ouvindo que não estava na hora. Quando finalmente puderam sair da caixa a mulher saiu tirando toda a roupa, um ato que numa situação de desespero perde todo o requinte de moralidade que conhecemos: “a gente nem olha para esse tipo de coisa”.

Divino era um cara do interior sem vivência de cidade grande. Nunca teve sofrimento semelhante aos que viveu tentando as duas travessias. Por tudo que sofreu tentando passar ilegalmente para os Estados Unidos, não queria mais voltar. Fábio o entendia perfeitamente, mas pensava nas dívidas que tinha aqui e não via mais condições de ficar de boa no Brasil. Tentou atravessar a fronteira ilegalmente pela terceira vez.

Terceira tentativa – o deserto

O início da terceira tentativa foi idêntico ao da segunda. Fizeram um pacote de turismo para Fábio com destino a uma cidade mexicana. Chegou no aeroporto com tudo esquematizado para os carimbos, pegou o visto, entrou, passou, foi pego lá fora pelos coiotes e ali começou o processo de transferência que ele já conhecia.

Dessa vez, parou para pensar e achou que o dinheiro que pagava pelo serviço era pouco porque ele passava na mão de muitas pessoas e em muitos lugares.

Depois de tentar a travessia por área urbana e pelo rio, chegou o momento de tentar pelo deserto. Ficou numa casa que considera o local em que mais sofreu no México e imaginou o quanto seria difícil para o ex-companheiro de travessia. “Se o Divino tivesse ido, acho que ele teria morrido de infarto nessa”. No período nessa casa, passaram três dias e três noites sem água e comida. 

Chegou a hora de ir. A travessia pelo deserto dura nove horas e não pode levar água. Por isso, antes de iniciar o trajeto, são orientados a beberem a maior quantidade de água que conseguirem. O receio dos coiotes é de que as garrafas marquem o local por onde passam no deserto. Também antes de sair passam por um breve treinamento para saberem usar o couro, um objeto que levam para se protegerem de tempestades de areia.

O movimento de proteção coletiva consiste em todos entrarem debaixo do couro e afundar, enquanto alguns viram de frente para o objeto, outros viram para o interior da rodinha e se abaixam para que a poeira não entre por baixo e bater somente em cima da estrutura que ele se forma. O couro é levado numa mochila que é revezada em todo o percurso somente pelos homens do grupo.

Fernando pediu que Fábio tivesse muito cuidado na travessia pelo deserto e que corresse para perto dos coiotes se algo acontecesse. Ninguém tem mais noção daquele espaço do que eles e pelo costume de andar ali já sabem para onde ir. Ninguém leva nada, só sobem com a mochila do couro revezada no ritmo do cansaço.

É uma caminhada de nove horas. O grupo saiu com dois coiotes, um guiando à frente e o outro era o último no caminho de trilha em que um vai atrás do outro num ritmo definido para os passos. “Ali você não pode parar, não pode caminhar menos e nem a mais”. Fábio lembrou disso e que é esse ritmo dos passos que determinam as nove horas estipuladas para a passagem pelo deserto. É um tempo que os coiotes não alteram.

Uma das lembranças mais dolorosas que o goiano guarda do deserto é uma vida que se esvaiu naquelas areias, sozinha sob o sol. Uma mulher que tinha diabetes começou a passar mal no percurso e boa parte dele foi praticamente carregada pelos companheiros. Mas sua condição de saúde e a demanda por ajuda dos demais começou a minguar o tempo do percurso.

“Larga ela”. Foi a ordem do coiote que guiava o grupo. A situação instalou um conflito carregado de todos os valores humanamente existentes, deixados de lado imediatamente pela segurança da própria existência em meio a gritos intensos em espanhol para largarem ela: “A gente percebeu que eles estavam armados”. 

Quando um dos coiotes com uma pistola na mão foi até o rapaz que segurava a mulher e mandou que a largasse por causa da hora ele a largou sentada no chão e continuaram o percurso. Hoje, Fábio ainda se lembra da situação com a mesma dor que vivenciou naquele momento.

“Essa mulher, no meu pensar, morreu”. “Ela não tinha para onde ir”. “Ela não tinha como voltar”. “Lá não tem saída”. “Ali é você passar ou não passar”. “Eles não te ajudam em nada, você já pagou por isso”. “Eles não te matam, só que não te ajudam em nada. Se você não der conta de fazer o percurso ou se você está no rio e o rio te levou, você já era”.

Ao se afastar da mulher viva sendo deixada sozinha no meio do deserto Fábio entendeu muita coisa. Uma delas é o motivo de encontrarem tantas pessoas mortas no deserto. O grupo olhava ela ficando cada vez mais longe até que pegaram uma duna e quando desceram já não dava para vê-la mais. 

O rapaz que ia à sua frente tirou da garganta o entalo confidenciando à Fábio sua grande consternação: “Cara, esses caras não tem coração”. 

Fábio, que tinha entendido tudo naquele momento, devolveu com equivalente desolação a pena pela situação da moça e pela situação deles próprios: “Nós estamos no meio de um lugar que o povo mexe com tráfico de pessoas. Eles estão atravessando a gente, você acha que esses caras estão preocupados com alguma coisa? Eles já estão errados, não se preocupam com nada não”.

Estados Unidos

Chegaram ao local da espera já nos Estados Unidos. Uma van verde parou na rodovia e os transportou para a casa de um americano. Um lugar que para Fábio era bem fora do normal, mulambento, tudo sujo e ali viviam cerca de 130 crianças: “nunca vi tanto menino na minha vida”. O dono da residência saiu para recebê-los. Estava sem camisa. 

Sentaram no sofá, no chão, mas o único assunto do qual falavam era a mulher que foi deixada no deserto. Todos estavam preocupados, apesar de não conhecê-la. Poderia ser qualquer um deles naquele lugar ficando para trás.

Apesar do banho oferecido e das roupas poderem ser lavadas, Fábio estava traumatizado e não queria que o tocassem: “eu só queria subir”. E o seu desejo de continuar logo foi atendido, Ranieri disse que ele seria dos primeiros a subir. Saiu dessa casa dentro de uma caixa de ferramentas numa caminhonete. Só coube ele e o pastor. Encheram a carroceria de casinhas de cachorro e amarraram dois cachorros com elas.

O cheiro delas e dos animais era para despistar a presença deles quando passassem pela barreira policial. Fábio não tem ideia se esses policiais americanos assim como os do México faziam parte do esquema, ouviu apenas a conversa de que o motorista tinha um pet shop e que mexia com cachorros. Passaram da barreira e foram para um ferro velho.

Ali teve a noção de que muitas pessoas faziam a travessia simultaneamente, pois começou a chegar mais pessoas, só que não eram as mesmas pessoas que tinham atravessado o deserto no grupo dele e eram outros coiotes. Saíram do ferro velho numa van como se fossem fazer uma excursão, mas cada um iria ser deixado num local. Fábio ia ficar em Los Angeles, na Califórnia.

Ao sair do Arizona na van, lembrou que se tivesse passado na primeira vez quando tentou por Tijuana iria direto para a Califórnia e já estaria próximo à San Diego, cidade californiana onde iria ficar. Viajou do Arizona à Califórnia com um pouco de tranquilidade porque não estava em nenhuma caixa e sem nenhum tipo de pressão. Mas ainda com medo. 

Algumas horas depois chegaram num posto de gasolina em Los Angeles e o motorista pediu que ele descesse e que a partir dali teria que ligar para o amigo dele. Desceu, a van foi embora e usou o telefone: “Fernando, eu estou aqui em Los Angeles”. O patrão já sabia em qual posto ele iria desembarcar.

Ficou apreensivo por não ver ninguém na rua e ficou desesperado com medo da polícia aparecer. A hora não passava, estava frio. Não ficou tranquilo nem quando Fernando chegou e entrou no carro dele. Ficou tranquilo, de verdade, quando chegou na casa que Fernando já tinha alugado para ele morar e conversaram: “Cara, que barra que você passou. Aqui agora você está em casa”.

Prisão nos Estados Unidos

Fábio trabalhou nos Estados Unidos por três anos (Fotos: Arquivo pessoal)

O sonho de trabalhar nos Estados Unidos durou três anos. Não tinha horário, o serviço era das seis às seis e estava alocado na área comercial da empresa. De outra perspectiva, Fábio fazia o próprio horário. Se terminasse tudo que tinha para fazer das seis às onze da manhã, voltava para casa. Três anos de sonho até começar o seu maior pesadelo.

Tinha um serviço para fazer em San Marcos, mas para chegar na cidade era preciso passar por uma barreira policial. Fernando sabia que era muito difícil que parassem os veículos naquele local, mas a preocupação existia porque era uma barreira policial. Fizeram como Fábio sugeriu: cada um foi num carro, o patrão na frente e ele atrás. 

Se Fernando conseguisse avisar que estavam parando, o goiano poderia desviar da barreira a tempo não entrando na rodovia. Elas não tem saída. São longas e os viadutos ficam distantes. Rodovias que para ele lembram Brasília. Se o motorista entra na rodovia tem que ir até muito à frente para voltar naquele ponto lá detrás para conseguir pegar outra saída daquele mesmo viaduto. E no meio da rodovia estava a barreira policial. “Não tem pra onde fugir”.

A sentença de Fábio foi entrar na rodovia e a barreira policial estar parando. Tentar qualquer coisa contrária o faria viver uma cena de filme na vida real: polícia andando na contramão e num estalar de dedos muitos policiais e helicópteros para todo lado. 

Fernando confirmou para ele que estavam parando e passou algumas orientações.  Tirou o boné da empresa e, se perguntassem, era para falar que não se conheciam: “Fala que eu pego você na praça”. Numa praça da cidade se concentravam muitas pessoas dispostas a qualquer serviço, alguém passava procurando uma pessoa que cortasse grama, por exemplo, e as pessoas iam se acertando conforme conseguiam se comunicar. Fernando escolheu Fábio porque falava português.

Quando parou, ouviu: “Speak English?”. Respondeu que não. Outra pergunta: “Speak Spanish?”. Respondeu que não. Pediram para que descesse do carro. O policial de grande estatura pegou sua carteira e a jogou no chão. Mandou que pegasse. E quando agachou foi suspenso pela cueca e assim levado para o escritório da barreira policial. Fernando também foi detido, mas o cidadão americano foi liberado quinze dias depois.

Fábio afirmou várias vezes que estava nos Estados Unidos trabalhando e não falou nada de Fernando. Após vinte dias na cela do escritório da barreira foi levado num furgão e, sem  saber se era dia ou noite durante todo o percurso, chegou numa sala muito fria e com bancos de inox onde assinou muitos papéis que nem sabia do que se tratavam.

No local,  passou por todo o processo de encarceramento: tirou a roupa, jogaram água nele e em seguida um pó branco. Depois de alguns minutos jogaram água novamente e o secaram. Lembra-se que uma mulher examinou suas partes íntimas e já em outra sala recebeu uma cueca e uma bermuda. Ficou surpreso quando começaram a raspar o seu cabelo e quando questionou o motivo para o policial que o acompanhava soube que ali todos entram careca por causa de piolho. 

Era só um imigrante que sabia que estava ilegal no país e não esperava receber aquele tratamento por essa infração. Se questionava o tempo todo enquanto fazia vários exames – tuberculose, pressão alta, HIV… fez de todo tipo. Foi quando questionou um policial que falava português designado para acompanhá-lo no processo porque estava passando por aquilo se era apenas um imigrante ilegal.

Então soube que estava num presídio federal, que iria receber um uniforme, que iria para uma cela e que iria passar por um tribunal. “Entrei em desespero”. Se lembra bem desse momento e do seguinte, quando soube que iria a julgamento porque foi pego com uma lista com nomes de várias pessoas que a polícia afirmava que ele estava passando ilegalmente para os Estados Unidos.

A vida na cadeia

O policial que falava português acompanhou Fábio do primeiro ao último dia no presídio. Deu ao goiano a informação que passaria por um tribunal, mas que não perguntasse mais nada porque sua entrevista seria com o FBI. Enquanto sua entrevista com o serviço de inteligência que investiga crimes federais não saía, teve que entender como era a vida ali dentro.

Do laboratório ao resultado dos exames se passou um mês. Só depois disso foi para uma cela. Recebeu um uniforme cinza. O presídio real é exatamente como é retratado nos filmes. As celas ficavam dispostas em andares, a de Fábio era a 324. Embaixo havia um salão grande com mesas onde jogavam dominó, cartas e faziam mágica.

Sempre que chegava algo para ele, escutava uma voz gritando o número de sua cela: “Three twenty-Four”. A cela abria e ele descia. Decidiu rápido como queria viver ali assim que soube como as coisas funcionavam lá dentro. O uniforme de Fábio era cinza e sabia que os detentos que usavam o alaranjado eram pessoas perigosas. Um desses detentos era o seu professor de inglês que já estava condenado a pena de morte e aguardava a progressão da condenação.

Era esse professor quem explicava para ele como era tudo lá dentro. O uniforme cor laranja era usado pelos presos condenados a prisão perpétua e a pena de morte. O professor, além da pena de morte, pegou 25 anos de prisão: “faltavam três anos do tempo que eu estava lá para ele”. Depois iria vir a execução.

Lecionar inglês era uma das atividades possíveis dentro do presídio federal. Fábio sabe que tinha escola, marcenaria, pintura, mecânica e supermercado. Podia fazer serviço de limpeza dos banheiros, arrancar mato e outras coisas. Nenhum trabalho era obrigatório, mas o serviço rendia ao detento um dólar, o que possibilitava fugir da comida que era servida e “comer bem”. 

Escolheu fazer pintura e estudar inglês. E vez ou outra limpava o banheiro de sua cela e de seu companheiro colombiano pela renda. O colombiano que dividia cela com ele esperava resposta para o pedido de asilo político. Além dele, convivia com muitos outros presos. Via os detentos que usavam o uniforme cor laranja no pátio, percebia que alguns eram pessoas bravas e que ficavam xingando outros presos.

Foi aconselhado pelo colombiano a nem mesmo olhar para eles, pois a maioria pertenciam a gangue Yakuza, organização criminosa transnacional que teve origem no Japão. No salão, estavam sempre todos juntos alocados num canto. Fábio tinha medo da convivência e passou a evitar os momentos em que podia ir para o salão e para o pátio.

A cela ficava aberta para isso, mas só saía para usar o micro-ondas ou para buscar qualquer correspondência que o seu patrão Fernando o enviava. Fábio acredita que não se importavam com o comportamento lá dentro porque já tinham consciência de que ficariam ali para o resto da vida.

Interrogatório do FBI

Além do dinheiro que ganhava trabalhando, Fábio também recebia ajuda financeira de Fernando. O patrão o auxiliou durante todo o período em que ficou preso. Possuía uma conta bancária lá dentro e sempre que queria comprar algo pegava o cartãozinho e usufruía da renda do trabalho. Gostava de comprar chocolate e sempre que podia fugia da “comida horrível” que era servida lá.

Frequentava muito pouco o pátio do presídio porque ficava num deserto e lá fora a temperatura estava sempre muito alta. Evitava o salão por causa dos detentos de uniforme cor laranja. Estudava inglês e seguia trabalhando até que, quase dois meses após a chegada no presídio, a sua primeira entrevista com o FBI, o departamento federal de investigação, foi marcada. 

“Three twenty-Four”. Quando desceu ao ser chamado foi levado algemado para uma sala e logo entrou um cara com a camisa do FBI e sentou-se na frente dele. Com uma cara ruim, olhou para ele, pegou uma folha com uma lista, abriu, virou em cima da mesa e perguntou onde estavam aquelas pessoas. Fábio reconheceu a lista que ele mesmo fez ainda no Brasil e que estava na carteira dele no dia que foi pego pela polícia na rodovia em direção a San Marcos.

A lista era o motivo de Fábio ter sido levado para o presídio federal mesmo sendo apenas um imigrante ilegal. Na segunda tentativa de passar pelo México, não levou celular. Então fez a lista com os contatos telefônicos que tinha da família, dos amigos, do patrão, dos coiotes de São Paulo e do México e colocou também o número de Ranieri.

Todos os contatos estavam numa lista feita numa folha de caderno escolar e desde que foi produzida ficava dobrada na carteira de Fábio. O FBI colocou na frente dele a lista original que já tinha alguns contatos que já não era possível identificar todos os números e uma cópia dela que tentaram melhorar a legibilidade. Queriam saber onde estavam aquelas pessoas e ele dizia que estavam no Brasil.

Respondia todas as perguntas chorando. Todas as respostas eram consideradas mentirosas e ouvia de volta que ele era um coiote e que traficava pessoas levando-as para os Estados Unidos. Coiotes são odiados pela polícia americana porque o tráfico de pessoas é abominável para eles e ouvia do policial do FBI que ele era um nojo de ser humano e que matava pessoas no caminho.

A maioria das pessoas cujos nomes estavam na lista estavam no Brasil e o indignava que a informação poderia ser facilmente confirmada e eles não fizeram. Eram números de telefones, era só ligar. O policial colocou a foto de um homem na mesa e perguntou se ele sabia quem era. Disse que não. Batendo a mão fortemente na mesa e olhando para Fábio, o policial dizia: “Essa pessoa você sabe quem é. É seu chefe”.

A entrevista seguiu com as mesmas perguntas de onde estavam aquelas pessoas, quantas delas morreram e quem era o cara da foto. Surgiu uma lista com nomes de coiotes e fizeram um triângulo para Fábio ver. No triângulo estavam os nomes dos coiotes e sua posição na organização. Seu nome estava numa das pontas como um investigado por tráfico de pessoas. No topo estava o nome “Ranieri”.

O desespero tomou conta de Fábio que permaneceu com as mesmas respostas até que o policial se levantou e saiu da sala. Voltou algemado para a cela, ligou para Fernando e o patrão o avisou que já estava buscando um advogado para representá-lo. Fernando o deixou consciente de que seria julgado, mas ainda não tinha uma data para isso ocorrer.

O advogado particular era essencial para Fábio, porque se não tivesse, teria que ser representado por um advogado do estado. O patrão disse a ele para não aceitar porque ele poderia cair com um advogado que não o ajudasse, porque nos Estados Unidos eles odeiam coiotes porque mexem com o tráfico de pessoas. “Nós vamos arrumar um advogado, você pode ficar tranquilo”. Tinha essa certeza de Fernando.

O segundo interrogatório ocorreu uma semana após o primeiro. Dessa vez, entrou uma policial mulher também com a camisa do FBI. Fábio chorou, negou que fosse traficante, disse que aquelas pessoas estavam no Brasil e mais uma vez negou que conhecesse o cara da foto: “Conhece, você conhece! Você tem esse nome na sua lista”.

Então, a policial disse a ele que era Ranieri, um cara procurado pela Interpol e questionava qual a ligação de Fábio com ele. Fábio argumentava que foi para os Estados Unidos trabalhar, que nem sabia falar inglês e repetia que tinha como provar que foi para o país trabalhar. Não conhecia o rosto de Ranieri, só sabia como era a sua voz. 

A entrevista teve as mesmas perguntas da primeira e as mesmas negações de Fábio. Foi entrevistado cinco vezes antes de ir a julgamento no tribunal, numa delas colocaram nele um detector de mentiras, que mostrou que ele estava mentindo. Acredita que gaguejou bastante por medo e nervosismo.

Julgamento e condenação

Se Fernando o tivesse abandonado estaria preso nos Estados Unidos até hoje. Acredita piamente nisso. É grato por toda assistência que sempre recebeu dele, pois não teria como pagar um advogado particular. O relato de todas as entrevistas foi entregue ao juiz. Uma semana após a última entrevista, um advogado se apresentou a Fábio no presídio. 

Pediu para ele ficar tranquilo e que eles fariam um levantamento da vida do goiano nos Estados Unidos: além de trabalhar, Fábio frequentava igreja e estudava. O advogado disse que iria atrás das atas dos cultos que ele participava e do colégio onde estudava para provar que sua vida era regular no país há três anos.

Chegou o dia do julgamento. No tribunal, um policial avisou que o juiz iria entrar e que no momento certo ele deveria se levantar e jurar falar só a verdade e nada mais que a verdade. Também soube que em nenhum momento o magistrado iria falar diretamente com ele. Tinha uma secretária eletrônica e através dela uma pessoa do consulado do Brasil estaria presente no julgamento.

A partir dali, tudo que soube foi através dessa pessoa. Uma mulher do consulado brasileiro começou a conversar com Fábio, o cumprimentou, explicou que ele estava num tribunal e que seria julgado por tráfico de pessoas. Passou para ele que eles tinham uma lista com nomes de pessoas do Brasil e do México que possuíam ligação com o tráfico de pessoas e que o nome dele estava nela. E que ele tinha ligação direta com uma pessoa procurada pela Interpol. 

Chorou e explicou para ela quem eram aquelas pessoas e que todas moravam no Brasil, mas ouviu do consulado que isso não era o que havia sido passado para eles e que estavam ali para acompanhar o processo porque o juiz não falaria direto com ele. Também recebeu o conselho de um advogado particular pelo mesmo motivo que Fernando já o tinha alertado.  

Houve uma conversa entre ela e o juiz. Quando voltou a conversar com Fábio, explicou para ele que um advogado já tinha feito uma ação de representação na corte e que iria apresentar provas de sua inocência. Mesmo assim, ela o avisou que naquele dia ele receberia uma condenação, ficando a possibilidade da alteração para deportação, caso as provas fossem concretas.

A sentença foi de oito anos de prisão em regime fechado por tráfico de pessoas. Entrou em desespero. A mulher do consulado disse que a pena para esses casos nos Estados Unidos é prisão perpétua, mas que a sentença tinha sido de oito anos por causa das possíveis provas que o advogado iria apresentar.

Fábio era só desespero. O algemaram, mas ele só queria continuar conversando com a mulher do consulado. Desligaram o aparelho, e mesmo assim ele implorava que “pelo amos de Deus” deixassem ele falar com ela. Repetia que era trabalhador e pedia para que o Brasil não o abandonasse, mas do aparelho não saia mais a voz de ninguém. “Para mim, eu estava sendo abandonado ali naquela hora”.

Viveu tudo aquilo podendo dividir num único telefonema com sua mãe, que estava no Brasil. Mas ficou meses dizendo a ela que estava tudo bem. Sua tranquilidade e esperança vinham de Fernando e do advogado, que o procurou após a condenação e pediu que permanecesse tranquilo, pois já tinha feito o levantamento daqueles nomes no Brasil, e já tinha as provas da igreja e da escola.

Fábio ficou quase um ano preso num presídio federal nos Estados Unidos e tinha um medo ali dentro: via um rapaz cubano de 26 anos que esperava asilo político conversando sozinho. Naquela cela onde ficavam duas camas e um vaso sanitário tudo de inox, seu medo era esse. Até hoje tem trauma de ficar muito tempo em lugar fechado.

Deportação dos Estados Unidos

Fábio Antônio de Jesus (Foto: Arquivo pessoal)
Fábio Antônio de Jesus (Foto: Arquivo pessoal)

Ligava sempre para Fernando. Numa das ligações, ele repassou uma informação que tinha recebido do advogado. Não informam quando o detento será deportado, então, ele deveria ficar de olho em quantos dólares tinham em sua conta. Se um dia fosse olhar e estivesse zerada, é porque iria ser deportado. Chegou o dia. Foi olhar e não tinha nenhum valor na conta. Voltou e contou ao colombiano que dividia cela com ele: “Então você vai sair”. 

Três dias depois chamaram ele: “Three twenty-four”. Desceu, assinou alguns papéis e o levaram para uma sala onde tinha uma caixa com todas as suas coisas. Trocou de roupa. Sem ninguém dizer nada até aquele momento, perguntou para o policial que falava português e que o acompanhou lá dentro desde o primeiro dia, o que estava acontecendo: “Você vai ser deportado”.

A pedido dele, verificou seus pertences e estava tudo lá, inclusive os dólares que estavam na carteira no dia que foi preso. Naquele momento, se lembrou do quanto foi roubado pelos policiais mexicanos em tantas vezes que passou por eles ou que esteve preso. Ao sair do presídio federal nos Estados Unidos, recebeu até as moedas. Eram cento e trinta dólares que ele tinha com ele a um ano atrás e que estavam diante dele entre seus pertences, como o fone de ouvido.

Sentiu-se como no dia que saiu do escritório da polícia na rodovia para San Marcos sem saber se era dia ou noite enquanto o levavam num furgão. Só disseram para ele que era uma quinta-feira. Foi para outro presídio onde assinou mais papéis e entrou numa nova sala. Após um tempo o transferiram para um quartinho no qual deveria descansar. Mas estava ansioso demais para dormir: “Eu queria ir embora, estava desesperado”. 

É sua lembrança mais presente de todos os lugares para onde era levado. Repetiu o processo de entrar em furgão, salas e assinar papéis várias vezes em lugares diferentes. O último transporte no qual entrou era uma van e desceu num galpão, mas nesse local a cela era diferente. Não tinha policiais balcões cheios de pessoas assinando papéis e uma única pessoa estava nela com ele. Quis saber onde estava. Mas a pessoa não compreendia português e Fábio não compreendia espanhol. 

A informação veio de outro cara que foi chamado: “Você está no aeroporto”. Da cela do aeroporto foi algemado e levado para o avião, um voo comercial. Foi informado que nenhum outro passageiro sabia que ele estava sendo deportado. Foi o primeiro a entrar no avião e conversou com um dos pilotos, que era brasileiro.

A vida de Fábio naquele momento se resumia em chorar. O piloto o tranquilizou avisando que o voo tinha como destino o Brasil, que era um voo comercial e não específico para deportados, mas que ficasse tranquilo porque ninguém sabia que ele estava sendo deportado. Foi informado que ao chegar no Brasil seria entregue à Polícia Federal e se não tivesse devendo nada à justiça brasileira, seria liberado para seguir a vida no país. 

A ansiedade aumentou um pouco mais ao ter que sair do avião e esperar por uma hora na cela para que um problema no avião fosse verificado. Mas sabia que iriam subir com ele novamente no avião. Ao retornarem para o avião, um policial se sentou na poltrona atrás da que Fábio estava, tirou as algemas rapidamente quando os demais passageiros começaram a entrar e entregou para o piloto uma sacolinha com um passaporte, que era novo, e outras coisas. E quando o avião levantou voo se consumiu da realidade: “Fui deportado”.

Uma história da vida de Fábio

Fábio foi entregue para a Polícia Federal em São Paulo, teve o seu nome verificado na justiça do país, depois recebeu todos os documentos que o pertencia, assinou papéis e como não devia nada à justiça, foi liberado. Só queriam saber se ele tinha condições de chegar em casa e ele tinha os dólares que lhe foram devolvidos. 

Viveu a burocracia resplandecendo a alegria de estar de volta ao Brasil. Livre. Com a sensação real de liberdade. Foi com essa liberdade que ao chegar em Goiânia abraçou uma árvore no aeroporto. Sem medo de parecer louco, apenas vivendo a liberdade de saber que estava livre no Brasil e que aqui não devia nada.

Um amigo não o reconheceu quando o viu, disse que nem parecia ser ele. Mas sua mãe nunca esqueceu sua voz. Chegou no portão com uma barba enorme trançada e cabelo grande. Colocou óculos escuros e ainda tentou mudar a voz para fazer uma surpresa para ela que nem sabia que ele estava no Brasil. Sua pele estava muitíssimo branca porque não se expunha muito ao sol há muitos meses.

Mas quando perguntou à senhora que abriu a porta se ela tinha um filho nos Estados Unidos ela simplesmente o abraçou. Consegue sentir hoje a mesma alegria que o tomou em 2009: “Cara, aquilo foi incrível”. Voltou para Goiânia, para sua família e amigos, para sua liberdade e trabalha há dezesseis anos para construir sua qualidade de vida no Brasil.

A vida de Fábio, como a de qualquer brasileiro, se entrelaça à economia. É preciso trabalhar para vencer as batalhas de cada dia. Então, tentou mudar sua área de serviço para trabalhar como instrutor de autoescola, mas o projeto não deu certo. Voltou para a marmoraria e é o que faz até hoje. 

O goiano acabou de abrir sua própria marmoraria e acredita que o ramo é a sua melhor atividade profissional para obter renda. Hoje, Fábio vive a vida como quem olha para os idos da primeira década dos anos dois mil e diz que “é isso aí”. E como num alívio, ao refletir sobre o que acabou de contar para muitas pessoas, mostra primeiro para si mesmo o que aqueles anos sempre serão: “Essa é a minha história. Achei que eu nunca ia contar para ninguém”.

Fábio Antônio de Jesus em entrevista à Sagres (Foto: Sagres Online)
Fábio Antônio de Jesus em entrevista à Sagres (Foto: Sagres Online)

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