Se um tema sobre mudanças climáticas e resíduos sólidos aparecer na redação do Enem, falar apenas sobre descarte correto do lixo pode ser pouco para desenvolver uma boa argumentação. O estudante pode ampliar a discussão e relacionar a questão ambiental à ocupação do espaço geográfico, às políticas públicas e aos diferentes impactos provocados pelas condições sociais de cada território.

A orientação é da professora Eliana Marta Barbosa de Moraes, diretora do Instituto de Estudos Socioambientais (IESA) da Universidade Federal de Goiás (UFG). Para ela, um dos primeiros cuidados é evitar a individualização da culpa e buscar as origens dos problemas ambientais.

“Se você pensa qual a origem do problema, o que leva a determinados impactos ambientais acontecerem, eu acho que essa é uma concepção importante”, explica.

Vá além do descarte

Na redação, o estudante pode partir de uma situação cotidiana: o lixo descartado de maneira inadequada. Mas a argumentação pode avançar para entender como esses resíduos interferem no espaço e podem agravar problemas ambientais.

Sacos plásticos, pneus e outros materiais, por exemplo, podem obstruir bueiros, pontes e galerias de águas pluviais. Também podem ser levados para cursos d’água e dificultar a passagem da água. Em períodos de chuva intensa, esse conjunto de fatores pode contribuir para alagamentos e inundações.

Para Eliana, por isso, clima não deve ser analisado isoladamente. Vegetação, solo, relevo e hidrografia também fazem parte dessa dinâmica, assim como as intervenções humanas sobre o território.

“Nós não podemos pensar no clima de forma isolada. Ao pensar sobre o clima, nós precisamos pensar na vegetação, nós precisamos pensar no solo, no relevo, na hidrografia e nas diferentes formas como o espaço geográfico vai sendo ocupado.”

Quem é afetado?

Outro ponto que pode fortalecer a argumentação é observar que os impactos ambientais não atingem todos da mesma maneira.

As condições de moradia e de infraestrutura de cada território ajudam a determinar a exposição da população a enchentes, inundações e outros fenômenos. Segundo a professora, muitas pessoas vivem em áreas consideradas de risco não por escolha, mas porque têm poucas alternativas de moradia.

“Se ela é considerada uma área de risco, é porque é área de risco para alguém. O sujeito é referência nesse processo”, afirma.

A ideia ajuda o estudante a evitar uma análise que responsabilize apenas o indivíduo e permite discutir como as desigualdades sociais também interferem na maneira como diferentes grupos ocupam o espaço.

Proposta de intervenção

Na hora de construir a proposta de intervenção, a recomendação é não ficar apenas em ações de conscientização da população.

O estudante pode pensar em políticas públicas para melhorar a coleta e a destinação dos resíduos, investimentos em infraestrutura urbana, ações de educação ambiental e medidas voltadas às comunidades mais vulneráveis.

Também é possível relacionar diferentes agentes, como poder público, empresas, organizações da sociedade civil e escolas. Para Eliana, a escola tem papel importante na formação de cidadãos capazes de compreender os problemas ambientais e participar da busca por soluções.

A professora também chama atenção para a relação entre diferentes escalas. Uma ação realizada em uma comunidade pode dialogar com políticas municipais, estaduais e nacionais.

Assim, se resíduos sólidos e mudanças climáticas aparecerem na redação, o estudante pode fugir de uma abordagem superficial. Mais do que dizer que é preciso jogar o lixo no lugar certo, a argumentação pode explicar as causas do problema, mostrar seus impactos no território e apontar ações de diferentes setores da sociedade para enfrentá-lo.

SER Goiás na TV

O Ser Goiás na TV é um programa educativo diário produzido pela Fundação Sagres, em parceria com a Secretaria de Estado da Educação de Goiás (Seduc-GO), que amplia a experiência da sala de aula por meio da televisão ao integrar comunicação e educação. 

O programa aborda o reforço escolar, a recomposição das aprendizagens e os desafios contemporâneos da educação básica, oferecendo conteúdo construtivo, instrucional e orientador para estudantes, famílias e comunidade, com entrevistas, videoaulas e diretrizes pedagógicas alinhadas às políticas educacionais, em consonância com o ODS 4 – Educação de Qualidade, da Organização das Nações Unidas, reafirmando o compromisso com uma aprendizagem inclusiva, equitativa e transformadora. 

Todos os dias, uma edição inédita, a partir das 14h, na Demà Sagres TV.

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