Perdi um grande amigo ontem. José. Isso dá um engasgo no peito que é difícil de explicar. Uma represa querendo estourar. As lágrimas, mesmo saindo fácil, não passam de um filete, ínfima parte de um imenso sentimento que a, por instantes, cruel realidade sustenta.

Mas não sou de sofrer com as lembranças das pessoas que amo e que já se foram. Antes que as lágrimas levem sal à boca, sempre consigo sorrir.

Eu e José vivemos aventuras que só imaginando para dar conta da verdade. A gente ria muito, por exemplo, à noite quando já estávamos mais para um truco do que para uma missão e de repente éramos escalados para levar alguém na roça.

A gente ria porque era bom rir. E ia com toda vontade, sem qualquer reclamação. Tanto fazia ir ou ficar, contanto que estivéssemos na nossa farra particular. E a gente ia com mais gosto porque o que nos levava era um Fiat 147 que parecia mula empacada que só nós dois sabíamos desempacar.

Nas fazendas, levando gente que fora à cidade correndo e precisava voltar para tirar leite de madrugada, a gente sempre encontrava a melhor bebida do mundo para fazer a vida, em plena adolescência, ficar mais alegre ainda. E não era água.

Na última vez que o vi, tomei uma cerveja em seu bar e conversamos sobre nada. Apenas rimos, como sempre soubemos fazer tão bem. Ele perguntou pelo Lucas, meu filho do meio. Pouco antes, na véspera dele se mudar para Minas, onde foi estudar, estivemos no bar e jogamos várias partidas de sinuca.

Zé parte com uma morte fulminante. Impossível não chorar. Impossível não sorrir com a vida que levamos. Construímos histórias que são eternas. Firmamos sentimentos que nada abala, nada destrói, muito menos a ausência.

Já vivo com saudade das histórias que inventamos juntos, agora vou viver muito mais, caro José. No coração batendo a gente se encontra. Talvez tenhamos que descer no riacho, como fazíamos quando o 147 atolava, e empurrar o carro. Mas e daí? Depois a gente toma outra. E vive um pouco mais. Pra variar.