“Essas alterações só foram feitas para beneficiar a inoperância do Estado”. Foi dessa forma que Cleomar Marques, sócio-fundador da Força Jovem Goiás (FJG), analisou as mudanças no Estatuto do Torcedor previstas no projeto que foi aprovado no Senado na última quarta-feira. O novo texto reacende ainda mais a discussão em torno do Estatuto, que está em voga desde 2003.
O projeto, de autoria do deputado Arlindo Chinaglia (PT-SP), prevê uma série de adaptações ao texto original da lei, que irão agora para sanção do presidente Lula. As modificações não foram bem recebidas pela FJG, principalmente o dispositivo que responsabiliza as torcidas organizadas por danos causados por seus membros no local do evento, nas imediações ou no trajeto de ida e volta do estádio.
“Essa medida vai transferir a responsabilidade da segurança para as torcidas organizadas. É só mais uma prova da ineficiência do poder judiciário e do poder público. Se isso realmente acontecer, todas as torcidas vão fechar as portas”, declarou Cleomar.
Segundo ele, tal atitude seria inconstitucional. O sócio-fundador da Força Jovem reforçou que tanto o ministro da Justiça, à época Tarso Genro, quanto o ministro dos Esportes, Orlando Silva, garantiram que esse projeto não seria aprovado. A garantia teria sido feito em uma das reuniões que as principais torcidas organizadas do Brasil tem realizado para debaterem o assunto.
Cleomar reforçou que caso haja uma situação em que a FJG seja apenada pela atitude de algum associado, a torcida entrará na Justiça para reverter a decisão. Essa seria uma atitude de consenso entre a maioria das torcidas no Brasil.
PERSEGUIÇÃO
Desde que foi criado, o Estatuto do Torcedor colocou em discussão a extinção das torcidas organizadas. Segundo Cleomar Marques, a própria lei já foi uma atitude inicial para que a mobilização para acabar com os grupos de torcedores tivesse início.
“Isso so existe para acabar com as torcidas organizadas. Eles querem que todas elas acabem até a Copa 2014, o próprio Ricardo Teixeira já deixou isso claro”, revelou Cleomar.Ele reforçou que as torcidas organizadas das principais equipes do país estão lutando para impedir que isso aconteça.
OUTRO PONTO DE VISTA
A Torcida Dragões Atleticanos (TDA) tem um pensamento diferente. O presidente da organização, Reinaldo Martins, enxerga de maneira positiva as alterações para o futebol de uma maneira geral, inclusive o artigo que prevê a responsabilização da torcida organizada pela atitude de associados.
“Acho benéfica responsabilizar a entidade, mas o poder público tem que atuar”, disse Reinaldo. Quando informado sobre o posicionamento da FJG em relação a esse dispositivo, o presidente da TDA afirmou que a Força Jovem só pensa assim por que é
uma das principais causadores dos problemas com torcidas em Goiás.
“A Facção do Goiás não tem controle dos seus torcedores. Nós temos controle sobre todos. A nossa entidade é tida como exemplo e nunca esteve envolvida em nada durante toda a sua existência”, provocou Reinaldo.
INEFICIÊNCIA DA LEI
Apesar da discordância a respeito à responsabilização das torcidas, em um ponto a FJG
e a TDA tem a mesma opinião: o Estatuto teve poucos resultados até o momento, e por isso acreditam que as alterações do novo projeto podem ter efeito nenhum.
“Em 7 anos a lei não foi implantada, não vai ser agora que isso vai acontecer”, afirmou
Cleomar.”Esse é o tipo de lei que o Estado não tem condições de cumprir atualmente”, concluiu Reinaldo. Ambos lembraram que há muitas disposições no Estatuto que nunca foram empregadas.
Os dois citaram como exemplo o monitoramento por imagens nos estádios, que já era obrigação em arenas com capacidade acima de 20 mil torcedores, e no qual o estádio Serra Dourada se encaixa. Entretanto essa situação não é vista no palco maior do futebol goiano.
FGF AGUARDA SANÇÃO DA LEI
O presidente da Federação Goiana de Futebol (FGF), André Pitta, preferiu não se posicionar sobre o projeto antes que o presidente Lula o sancione. “A gente vai aguardar a decisão da lei para depois pensar no que deve ser feito”, afirmou Pitta.
O presidente da FGF ressaltou que a alteração que pode trazer mais dificulade para ser implementada é o monitoramento com câmeras nos locais onde as partidas serão realizadas. Ele lembra que com o novo texto, estádios como o JK em Itumbiara, e Jonas Duarte em Anápolis, terão que ser adequados.
“É preciso olhar o teor da lei, se vai ser para todas as competições, ou se vai ser válido somente para Série A, ou B. Sendo assim não vai ser preciso alterar nada no JK nem em Anápolis”, lembrou Pitta. Segundo ele, o Serra Dourada já conta com câmeras de vigilância, mas que não abrange todo o estádio. André ressaltou que em um projeto como esse, é provável que haja um prazo para adequação às medidas.
A reportagem tentou entrar em contato por telefone durante a tarde de hoje (09) com o presidente da Torcida Esquadrão Vilanovense, Mário Abraão Júnior, porém as ligações não foram atendidas.












