Um lugar onde se vende de tudo: novos e usados, e com preços tão baixos que levantam suspeitas. Na antiga Feira da Marreta, no Setor Nova Vila é possível adquirir por menos de R$ 100 um Iphone de última geração, que, no mercado formal, vale quase R$ 2 mil.

Detalhe: sem nota fiscal. A origem desse produto é incerta. A reportagem da Rádio Clube de Comunicação tentou adquirir um revolver na feira e encontrou quem vendesse. Após 30 minutos conversando com alguns frequentadores, a equipe de reportagem foi abordada por um jovem que ofereceu uma arma calibre 22.  A entrega seria feita fora da feira. A reportagem não realizou a negociação porque seria crime.

Diferente das demais feiras da cidade, a Feira da Marreta não tem nenhuma organização. Quem não tem barraca, coloca um pano no chão e vende sua velharia por ali mesmo. A feira, com quase 50 anos, poderia até ser um ponto turístico da região dada a sua tradição, mas só provoca constrangimento.  Morador da Nova Vila há mais de 40 anos, Talles Dias reclama da má fama do bairro por causa da feira. “Para nós não é viável; tem muita coisa sem procedência, às vezes a polícia faz arrastão aí, mas mesmo assim continuam vendendo coisas roubadas aí.”

Um pedreiro, que preferiu não quis se identificar, conta que comprou uma bicicleta quase nova por um preço ótimo, mesmo correndo o risco de ser acusado de receptação.  Ele é a favor da permanência da Feira da Marreta, mas reconhece que precisa aumentar a fiscalização. “Acho que deveria ser legalizada e mais organizada, só que ela já faz parte da história do bairro.”

A antiga Feira da Marreta está entre as 24 feiras especiais com funcionamento autorizado pela Secretaria Municipal de Indústria e Comércio. Mas de longe é a que causa mais transtornos. De acordo com o Código de Posturas da cidade, para ocupar espaços públicos os feirantes devem ser cadastrados e pagam uma taxa anual, mas a prefeitura não quis divulgar o valor da anualidade. Cabe ao município fiscalizar a procedência dos produtos comercializados, de acordo com a lei. As ações devem ser respaldadas pela Polícia Militar. Segundo o comandante da área, Major Henrikson de Sousa, há mais de um ano a prefeitura não visita o local. FOTO TENENTE CORONEL ANÉSIO

Segundo o assessor de comunicação da PM, tenente-coronel Anésio Barbosa, cabe à polícia apenas patrulhar a região para prevenir a violência. A PM não tem poder para barrar a venda de objetos roubados. “O serviço de inteligência busca identificar as situações de crimes, mas a polícia não tem como proibir que os informais vendam seus produtos;  isso é da alçada da prefeitura.”

FOTO MAURICIO NARDINIConversando com feirantes cadastrados, a reportagem descobriu que existem outras irregularidades na feira, que só foi regularizada em 2009, quando o Ministério Público ameaçou acabar com a comercialização livre naquele espaço.  A prefeitura e os feirantes, à época, representados por Donizete José Ribeiro, se comprometeram a padronizar as barracas e monitorar a origem dos produtos. Na tentativa de legalizar o comércio informal optaram por novo nome e a Feira da Marreta passou a ser chamada de Feira Múltipla. Uma mudança só de denominação que não coibiu o pratica criminosa que ocorre ali todos os domingos, esclarece o promotor de justiça, Mauricio Nardini. “Ali é um espaço conhecido tanto da prefeitura quando do Ministério Público e há muitas denúncias. A feira foi regularizada, mas é preciso fiscalizar.”

feira marretaA reportagem da Rede Clube de Comunicação descobriu que, mesmo sem uma associação regular, os feirantes pagam uma taxa semanal que varia de R$12 a R$ 50, de acordo com o produto oferecido. Por dez anos esse dinheiro foi  para o bolso do Donizete José Ribeiro, um corretor da região responsável pela transferência da feira da Praça da Boa Ventura para uma área em frente à sede da Sociedade Goiana de Pecuária e Agricultura (SGPA).  Essa mudança permitiu que ele comandasse ao mesmo tempo a Feira da Marreta e a Associação dos Compradores e Corretores Autônomos de Veículos Automotores, instalada na área pública desde a administração de Nion Albernaz.

Afastado da associação em 2011, Donizete continuou recebendo dos feirantes como se fosse o dono da feira. Com o compromisso de não ter o nome publicado, um feirante relatou à reportagem que qualquer pessoa podia montar sua barraquinha na feira. “Era só pagar a taxa e se instalar, o Donizete nunca questionou se o produto era roubado ou não.” Segundo o diretor jurídico da entidade, Carlos Dantas, a morte de Donizete, ocorrida há três meses, não pôs fim ao esquema. “Agora são os filhos do Donizete que recolhem a taxa dos feirantes, não houve eleição, não houve nada, eles herdaram a atividade do pai.”FOTO GERALDO FREIRE

O espaço público explorado por uma única família pode está com os dias contados.  O secretário de Indústria e Comércio, Geraldo Freire, promete ação rigorosa para moralizar e ordenar a feira. “A gente sabe que tem algumas ações ali que não estão de acordo com a legalidade, mas estamos preparando uma grande ação com a PM, Guarda Municipal e Policia Civil para coibir a venda de objetos roubados. Vamos moralizar para que possa continuar ou não.”

Enquanto a operação não ocorre, isso, os goianienses convivem com um espaço público onde se vende aquilo que é tirado da população, na maioria das vezes, por meio de violência.