Um estudo realizado em 20 países, incluindo o Brasil, busca avaliar o comportamento e as condições de vida da população durante o período de isolamento social provocado pela pandemia. No Brasil, a pesquisa intitulada International Citizen Project Covid-19 (ICPCovid), em português Projeto Cidadão Internacional Covid-19, é coordenada pela bióloga e epidemiologista, Edlaine Faria de Moura Villela, professora da Universidade Federal de Jataí, em Goiás.

Segundo a coordenadora, a pesquisa iniciou a sua quinta fase na última segunda-feira (6), e já observou mudanças no comportamento dos brasileiros desde o início da pandemia.

“No início de abril, na primeira fase, as pessoas estavam com dificuldade de usar a máscara facial. Menos da metade usava máscara facial. Com o passar do tempo, as pessoas passaram a usar máscara. De 45% para 90% passaram a usar máscara na segunda fase”, afirma.

Menos confiança nas autoridades de saúde

Segundo a coordenadora, a pesquisa aponta baixa confiança dos participantes em políticos como o presidente da República, governadores, prefeitos e autoridades de saúde.

“As pessoas confiam no profissional de saúde. Mais de 60% das pessoas afirmam isso em todas as fases. A gente observa sempre uma porcentagem muito baixa de confiança na fala das autoridades políticas. Geralmente não ultrapassa 10%”, esclarece.

No Brasil, o Ministério da Saúde, por exemplo, segue sob o comando de um ministro interino, Eduardo Pazuello, desde a saída de Nelson Teich, no dia 15 de maio, que não completou um mês no cargo.

Flexibilização

Outro questionamento da pesquisa é sobre a dificuldade de adesão às regras do isolamento e distanciamento social. No entanto, a coordenadora aponta que a flexibilização, ocorrida principalmente no último mês de junho em diversas regiões do país, como Goiás, tem deixado a população confusa sobre seguir ou não as medidas anti-Covid-19.

“As pessoas passaram a aderir melhor às medidas restritivas, adotaram o uso de máscara facial, vêm fazendo a higienização das mãos como solicitado. No entanto, a população está um pouco confusa, se ainda é ou não necessário adotar todas essas medidas diante da flexibilização que ocorreu no mês de junho. Isso acaba desmotivando as pessoas a seguirem as recomendações”, afirma.

Em Goiás, a meta do governo estadual é chegar a 50% de isolamento social com o decreto 14 x 14. que visa fechar o comércio por 14 dias e reabrir posteriormente pelo mesmo período. Desde que a medida passou a vigorar, no dia 1º de julho, o índice subiu de médios 35% para 37%. No domingo (5), chegou a 47%.

Sintomas

Mais de 30 mil pessoas em todo o país já participaram da pesquisa. No questionário, que leva em média entre 5 e 10 minutos para ser respondido, há perguntas sobre o trabalho em casa, a quantidade de vezes que foi preciso sair da própria residência nos últimos dias e se houve contato com pessoas infectadas pela Covid-19. No levantamento, o participante também responde se já fez o teste para detectar o vírus ou se apresentou algum sintoma recentemente.

“A partir da terceira fase, começamos a investigar pessoas diagnosticadas com Covid-19. Descobrimos que 32% dos participantes apresentaram sintomas gripais na primeira quinzena de maio. Pelo menos 7,1% tiveram contato com um caso confirmado. Do total de participantes, apenas 143 foram testados para a COVID-19 e 12,6% deram positivo. Dos casos confirmados, apenas 19,8% foram colocados em quarentena”, relatou a professora.

Saúde mental

O estudo mostra ainda que o isolamento social tem afetado a saúde mental em 26% das pessoas entrevistadas. “Nesse contexto, 32% já apresentavam comorbidades antes da pandemia começar e 11% dos participantes foram diagnosticados com uma comorbidade no mês de maio. As principais enfermidades relatadas foram hipertensão, diabetes e asma. As pessoas apresentaram maior preocupação com a própria saúde no final do mês de abril, no entanto observamos uma queda na terceira fase, que ocorreu entre 15 e 20 de maio”, destacou a coordenadora do estudo.

Trabalho em casa

Segundo Edlaine Villela, o número de pessoas que estão em home office tem se mantido desde o início do levantamento. “Desde a primeira fase, 60% das pessoas têm trabalhado em casa. E esse número tem se mantido, as pessoas têm trabalhado em casa quando possível. Esses 40% que não trabalham em casa é porque não têm condições, seja porque o empregador não liberou, seja porque se trabalha com coisas que não é possível fazer em casa. Então a gente observou que o isolamento, no início, foi respeitado”, afirma.

A pesquisa aborda também a falta de esperança do brasileiro em relação ao trabalho e pergunta se houve perda do emprego em razão da pandemia, mas ainda não há dados suficientes para fazer uma avaliação. Os números devem ser divulgados futuramente.

A pesquisa

No Brasil, a primeira etapa da pesquisa aconteceu de 3 a 9 de abril. As informações estão sendo coletadas em intervalos regulares para monitorar as mudanças de comportamento e os indicadores de baixa adesão geral ou em grupos populacionais específicos.

Os resultados parciais estão sendo divulgados em websites e mídias sociais. As autoridades sanitárias que tiverem interesse nas informações sobre o estudo para auxiliar nas estratégias e intervenções a serem adotadas podem entrar em contato com a pesquisadora responsável no Brasil: [email protected]

Segundo a coordenadora, posteriormente, o grupo internacional fará um comparativo com os dados dos países participantes do consórcio. Além de servir de orientação para as políticas públicas, o estudo pode auxiliar a lidar com possíveis episódios recorrentes e na preparação de futuras pandemias. O estudo, ao ser realizado em diferentes países, vai possibilitar a identificação de estratégias mais eficazes ao fazer uma comparação dos dados locais obtidos nos questionários.

“A gente acredita que com essa pesquisa nós vamos conseguir mensurar o nível de aderência das pessoas às recomendações passadas e depois fazer estudos futuros comparando esses níveis de adesão às medidas com o aumento da evolução dos casos no Brasil. É uma pesquisa base para poder conduzir diversas outras pesquisas”, afirma.

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