Insuficientes 17 anos e uma mudança radical. Tudo girou de ponta a cabeça sem perguntar se ele queria ou estava preparado para aquilo. E não. Não queria e não estava. Mas não tinha mais nada o que fazer, a não ser aceitar e seguir à diante. Teve que deixar pessoas que amava para trás e percorrer um caminho que não tinha certeza se era o caminho certo.

Sorte dele que tinha que chegar cedo na faculdade. Assim, as coisas começaram a ficar menos assustadoras. Ela também chegava bem mais cedo. Ficava escondida atrás da tela do PC, quase não a via. Na época achava que era até proposital, para não ter que interagir com ninguém. Depois de conhecê-la, teve certeza. Mesmo com essa impressão, ele insistia nessas conversas genéricas que deixam bem claro o intuito de forçar uma aproximação.

Tinha também o cara gente boa, que sempre o cumprimentava na saída. Mesmo de muito longe, assobiava e acenava. Todos os dias o via saindo da aula e nunca deixava ele ir sem se despedir. A verdade é que ele não sabia quem era esse cara, mas como sempre era cumprimentado, passou a procurá-lo na faculdade para saber quem era. E deu certo.

Com esse cara gente boa andava o meninão. Novo não só na idade: era simples e até inocente, como uma criança. Sempre alegre e que não aceitava ver ninguém triste. Não admitia, fazia qualquer coisa para animar qualquer um. E assim cativava os outros com uma facilidade assustadora.

Certo dia, durante uma aula, a porta se abriu e entrou um carinha. Vinha de transferência e caiu de paraquedas no meio de tudo. Isso não foi problema para ele. Era muito comunicativo e animado, até demais, na verdade. Outro “forasteiro” também apareceu no meio do caminho. Esse era diferente: fechado, vinha de longe e parecia assustado.

Ele não lembra bem (só sabe que uma delas conheceu em uma discussão geográfica) mas no entremeio disso tudo tinham duas meninas de mesmo nome. Aliás, eram apenas dois nomes para três meninas. Agora já não era só ele, eram oito. Oito que passaram a percorrer o mesmo caminho, mesmo que com alguns tombos e passos para trás.

De repente o passado se foi, não machucava mais. O presente era o seu novo mundo agora. Era por ele que vivia e por ele que morreria também. Não tinha espaço para mais nada naquele coração e naquele caminho. Era seu corpo, sua mente e sua alma. Seu presente e seu futuro. Era aquilo, era para sempre.

Mas não mais que de repente também, tudo se foi. O caminho foi ficando estreito demais para os oito, não cabia mais. A estrada foi apertando, apertando, até que, naturalmente, ele ficou para trás. Olhava à diante, com medo de que os poucos passos que o separava dos outros se tornassem quilômetros, e foi exatamente isso que ele viu acontecer. Cansado de andar atrás, parou de andar. Ficou por ali mesmo até os ver sumir no horizonte.

De início a decepção foi o que lhe tomou. Não queria mais saber de nada, esquecer de tudo o que tinha levado até aquele ponto e de tudo que deixou de caminhar à diante. E ele fez d tudo para que isso acontecesse. Depois veio a saudade e com ela a raiva, a não aceitação. Hoje ele apenas acha que valeu a pena. Que tudo na vida é experiência e que nos transforma no que somos. Hoje, ele realmente acredita que foi feliz.

Ele não está mais parado naquele ponto. Continua percorrendo o seu caminho com outras pessoas ao lado e, uma vez ou outra, dando de cara com grandes reencontros. Sempre que dá ele pega um binóculo e, ansioso, olha para o horizonte, procurando os sete. Ao vê-los, sorri e deseja do fundo da alma que o caminho deles nunca mais volte a se estreitar. 

Feliz dia dos amigos!