O cientista político e pró-reitor da Unievangélica, Itami Campos, os candidatos ao governo de Goiás Iris Rezende (PMDB) e Marconi Perillo (PSDB), ao disputarem propostas, não se diferenciam um do outro, pelo contrário, se aproximam. Itami realta que as propostas apresentadas por eles, por enquanto, estão mais no plano eleitoreiro.
Para ele, Iris e Marconi fazem campanha apostando na polarização e só deverão repensar suas estratégias se Vanderlan Cardoso (PR) apresentar crescimento nas pesquisas.
Na sua visão, o presidente Lula e sua candidata, Dilma Roussef, conseguirão influenciar nas eleições para o governo de Goiás, beneficiando o candidato do PMDB. Também não vê influência de José Serra no cenário local.
Segundo o cientista um dos motivos que faz com que a campanha eleitoral esteja morna, com pouco apelo popular, são as restrições impostas pela legislação eleitoral, que impedem showmícios, manipulação de imagens e humor com candidatos na TV.
Tribuna – Como o Senhor avalia a disputa de propostas entre os candidatos ao governo, principalmente entre Iris Rezende e Marconi Perillo?
Itami Campos – O fato de eles ficarem disputando eleitores dessa forma termina descaracterizando-os um pouco, porque não há muita novidade na apresentação deles. Pois os custos, a realidade dessas propostas, não aparecem. Ficam mais no plano eleitoreiro, e convergindo para um centro em que eles ficam muito próximos um do outro. Por exemplo, qual a diferença entre as propostas de Marconi e de Iris? Praticamente nenhuma. Há, por assim dizer, só uma maquiagem diferenciando um do outro. Isso é ruim para o eleitorado, porque fica difícil estabelecer a diferença entre Marconi e Iris. Em que eles se diferenciam? Ambos governaram o Estado por dois mandatos. Há uma série de características. Mas com que dados o eleitor vai diferenciá-los nesta campanha? Nenhum deles tem contribuído para isso.
Isso pode confundir o eleitor? Sob que aspecto isso poderia favorecer o candidato Vanderlan Cardoso, que tenta se colocar como diferente?
Iris e Marconi apostam muito nessa polarização. Agora, se o Vanderlan, que pode ter outras propostas diferentes, começar a crescer nas pesquisas, é que os dois vão se preocupar com isso.
Mas se Vanderlan continuar com menos de 10% nas pesquisas, eles saberão que a disputa é entre os dois, aí eles ficam neste jogo, sem avançar em aspectos das propostas que podem ser mais complicados, mais complexos.
Eles têm suas marcas. Iris fala mais em infraestrutura, tem um passado de construção de estradas; enquanto Marconi é a modernização do Estado. Então, concretamente, eles ficam muito próximos um do outro, não jogando com muitas diferenças.
Um faz uma proposta e logo o outro vem com outra semelhante. Isso porque as pesquisas qualitativas lhes apresentam uma pauta de preocupação da população. Elas indicam determinadas informações que não são muito diferentes.
As pesquisas qualitativas que Iris, Marconi e Vanderlan fazem não dão resultados diferentes. Elas dão as mesmas indicações. A questão é como eles vão abordar temas como educação, transporte, segurança púbica.
É aí que está à possibilidade de cada candidato se diferenciar. Agora, se o Vanderlan começar a crescer, essa questão muda, pois aí tanto Iris quanto Marconi vão se sentirem ameaçados.
Esta campanha tem sido colocada como atípica. Há quem diga, inclusive, que ela mal começou. O sr. concorda com isso?
A campanha está morna. Tendo em vista que este deve ser o último grande embate entre Iris e Marconi, que começou em 1998.
Acredito que no desenvolvimento desta campanha, as coisas se definam, e a disputa se acentue. Pelo que tenho visto, em suas falas, nas entrevistas, suas propostas ainda estão em fase de elaboração.
Percebo que eles não têm um plano de governo concreto ainda. Um candidato diz, por exemplo, vamos dar computador para todos os estudantes. Isso é uma política para a Educação e que demanda uma direção.
É isso que me leva a afirmar que as propostas ainda estão no plano eleitoreiro. E é o que fomenta a proximidade entre os dois candidatos.
Em sua opinião, o candidato Vanderlan Cardoso tem sido bem-sucedido em seu projeto de se apresentar como o diferente?
Não. Penso que ele ainda não se saiu muito bem nessa proposta. Por exemplo, no último debate [realizado pela TBC, na terça-feira, 24] ele se aliou ao Iris para bater no Marconi. Não vemos propostas diferentes ainda. Não adianta dizer só que é novo. É novo em quê? Novo como? É preciso mostrar em quê ele é diferente. Quais são suas novas propostas ? É preciso apresentar propostas novas.
O Senhor acredita que não há novidade nesta eleição?
Concretamente, não tenho visto nada de novo em termos de campanha. A campanha atual está repetindo as passadas. Penso, inclusive, que o formato de campanha no país está muito engessado. Tem muitas proibições. Não pode fazer humor com candidato. Se fizer um debate, tem que chamar todo mundo. Tem uma série de limitações que a Justiça Eleitoral coloca que engessa as campanhas e que faz com que essa campanha não tenha apelo popular. Os envolvidos são mais os candidatos e os cabos eleitorais. Quando você proíbe uma série de atividades, você limita a campanha,ou seja, a campanha acaba ficando muito enxuta. Os candidatos justificam que a televisão ajuda, pois não precisam andar ir aos lugares. E talvez por isso vejo um certo comodismo dos candidatos. E, consequentemente, isso faz com que as campanhas não tenham apelo popular.
O assunto Celg tem pautado o debate eleitoral. O Senhor acredita que este tema terá peso na decisão dos eleitores?
Acho que só terá influencia se esta questão se agravar mais. O apelo eleitoral não é forte. Porque você entra em um aspecto técnico e só as pessoas que tem um maior nível de informação são influenciadas. Para o eleitor comum, quase todo mundo tem culpa no cartório.
O passado de dívidas da Celg leva a uma situação que os eleitores não conseguem enxergar quem é o culpado pelo problema. O PMDB esteve no governo, o PSDB também e o PP está agora. Não é possível para o eleitor comum dizer quem é o culpado e apontar o dedo.
O fato de ser um patrimônio do Estado que pode ser federalizado ou privatizado, isso pode afetar o eleitor?
Não sei. A venda de Cachoeira Dourada, por exemplo, o Estado perdeu um patrimônio, mas não houve muita repercussão política. O problema é a despolitização do eleitorado. Esse nível de informação sobre esse problema, que pode ser sério, acha que não há. Tenho dúvida se o eleitor vê a Celg como um patrimônio goiano.
Um tema muito presente nas propostas dos candidatos é a infraestrutura. Os candidatos o elegeram como principal foco de ação. Como o sr. avalia esta escolha? É algo que atinge diretamente a população?
A questão da infraestrutura traz dois pontos a serem tratados. Um é que o setor empresarial é fundamental no processo eleitoral. Outro, que a infraestrutura é uma marca de Iris Rezende. É ele quem diz que faz asfalto, e se elegeu em Goiânia muito em função deste apelo. O discurso dele é o discurso da realização de obras de infraestrutura. Mas nesse processo que falei de proximidade entre os candidatos, o Marconi vem e também entra nessa de propor obras de infraestrutura e mostrar que também fez. Quando pegamos a realidade do Estado em termos de estradas, de problemas de escoamento de safra e em toda essa questão, vemos que aí se apresenta um problema concreto que afeta uma categoria importante, que é o setor empresarial. Por causa desses problemas ocorrem perdas que afetam o bolso do empresário e o empresariado rural, principalmente, que é um grupo que tem força. Isso é um fator que mobiliza e que faz com que os candidatos, quando vão conversar em ambientes como as federações da indústria, do comércio e entidades empresariais, eles não perguntam assuntos paralelos, eles vão direto ao ponto que os interessa. Como o eleitor comum não tem muita firmeza com relação ao que quer do candidato, as coisas ficam um pouco embaralhadas, as propostas ficam mais jogadas. Agora, junto aos empresários, os candidatos têm que responder objetivamente, com presteza e clareza.
Então, neste contexto, a questão da Celg pode ter peso?
O que penso é esse tema que pode realmente afetar, desde que isso comece a ser apresentado como um problema. A questão está colocada, mais na medida em que houver um desdobramento, este desdobramento será pautado. O que cada candidato vai fazer para resolver. O governo pode ter razão. O Alcides pode ter razão.
O candidato Iris Rezende aposta muito na parceria com o presidente Lula para crescer nas pesquisas e vencer as eleições. Só que em Goiás, nem sempre a eleição presidencial influencia na eleição ao governo. O sr. acredita que Lula terá influência ou a história deve se repetir?
A campanha presidencial está descolada da estadual. A campanha do Serra não está influenciando aqui, nem a da Dilma. O Lula entrou na propaganda eleitoral do Iris, mas não sei até que ponto isso poderá ter efeito. Penso que não deve ter efeito. Acho que o eleitor comum não enxerga essa parceria. O Lula próximo de Iris. O Lula conseguiu fazer, com muita habilidade, a transferência de votos para a Dilma. Ele foi muito habilidoso e por algum tempo vem colando sua imagem à da Dilma. No programa eleitoral dela, uma parte diz: “O Lula nasceu em Pernambuco e a Dilma nasceu em Minas. O Lula foi para São Paulo e Dilma para o Rio Grande do Sul. O Lula foi preso pela ditadura e Dilma também, e etc”. Ou seja, há uma tentativa de aproximação aí. Mesmo com as falas de Lula de que ele apoia Iris, acho que o apelo de Lula tinha que ser muito forte para ter efeito na campanha. Quero ver os resultados das pesquisas eleitorais primeiro para ver se isso se confirma. Pois, na verdade, estou falando quase que em hipóteses. Se as pesquisas mostrarem uma tendência, aí, sim, será possível afirmar com mais certeza.
O que tem mais importância e pesa mais para o eleitor, a figura do candidato ou as promessas?
Acho que é uma mistura. O candidato que faz uma proposta e que inspira confiança tende a ter a confiança do eleitor. E isso é fundamental.
Muitos acreditam que o horário de propaganda eleitoral gratuita na televisão e no rádio são fatores decisivos na campanha. O Senhor concorda com isso?
A televisão tem a imagem e tem uma força que o rádio e o jornal impresso não têm. O rádio é uma mídia muito importante, mas o fator de imagem da televisão tem muita força. Mas acho que as mídias alternativas têm menos repercussão que as tradicionais.
Alguns candidatos apresentam problemas em suas performances na televisão e em seus programas. Até que ponto isso pode influenciar o eleitor?
Os candidatos e os marqueteiros estão trabalhando muito com efeitos e em programas bem montados, mas não é possível inovar muito. Há limitações.












