Assim como do Gleidson esse é o drama de muitas pessoas que, por uma série de perdas, muitas vezes não por culpa própria, se encontraram privadas de uma das maiores necessidades da pessoa humana: uma casa, um lar, com tudo aquilo que isso representa, isto é aconchego, um mínimo de conforto, privacidade, calor humano e família
Cidadão é aquele que se identifica culturalmente como parte de um território, usufrui dos direitos e cumpre os deveres estabelecidos em lei. Ou seja, exercer a cidadania é ter consciência de suas obrigações e lutar para que o que é justo e correto seja colocado em prática. Gleidson de Souza Santos de 30 anos há pelo menos seis anos se identifica culturalmente em um único lugar: na rua. As decepções e dificuldades da vida, o levaram ficar vagando por pontos Goiânia. O direito que encontra é o de ir e vir, de usar lugares públicos como abrigos.
Gleidson de Souza conta como saiu do aconchego de um lar e foi parar na dureza e frieza das ruas. “Sai da minha casa mais o meu pai para irmos para Brasília. Meu pai faleceu e eu vim para Goiânia. Encontrei emprego, trabalhei, não deu certo na fábrica de calçados, o cara não pagava bem, mudei para outro e ai assim foi à época que eu perdi os meus documentos. Fiquei desempregado e fui esperar pelo Ministério Público para trazer a documentação da minha cidade, porque demora três meses. Ai eu consegui arrumar meus documentos, trabalho de volta, mas eu já estava bebendo pinga acostumado na rua”, explicou.
Quando encontrei como Gleidson ele dormia embaixo da marquise de uma loja na Rua 4 no Centro de Goiânia. Ela estava fechada, com uma placa de aluga-se na porta. Gleidson dormia. Ele deitou em cima de papelões, se cobriu com um fino cobertor. Do lado dele haviam duas sacolas cheias de materiais recicláveis que coleta diariamente para sobreviver. Para ter um pouquinho mais de conforto, colocou os braços embaixo da cabeça e os fez de travesseiro. As pessoas que passavam pelo lugar apresentavam diferentes reações. Perguntei a várias, qual o sentimento que tinham ao ver Gleidson numa situação sub-humana.
A vendedora Mônica do Nascimento foi uma das pessoas que por ali circularam. O dia para ela estava começando, já tinha tomado café, estava pronta para trabalhar. Mas e quanto a Gleidson. Ela relata o que sentiu quando eu o mostrei deitado no chão do outro lado da rua. “Me sinto muito constrangida né, porque a nossa sociedade ela está muito desumana porque a gente tem que ajudar o próximo. A gente fica com medo, mas eu acho que a gente tem que ser mais humano, estar ali sempre tentando ajudar de alguma forma porque é um ser humano. Pode estar ali, sujo, fedido e você está ai todo bonito, bem vestido, cheiroso. É fácil de ajudar”, declarou.
Outra pessoa que passou pelo local ondem Gleidson estava deitado foi a garçonete Geysiane Rodrigues Ferreira. A reação dela é a mais comum no dia-a-dia de qualquer pessoa. “Me sinto muito mal, tenho dó, me dá vontade de ajudar, mas eu não posso né. As vezes eu ajudo, dou uma moeda, mas eu não posso fazer mais”, ressaltou.
Antes de falar com Gleidson passei em um quiosque ao lado de onde eu observava e comprei dois pães de queijo e um café. Fui até ele e levei o alimento. Fiquei do lado dele, trisquei no ombro esquerdo, ele já não mais dormia. Se assustou um pouco quando o abordei, mas abriu um sorriso ao saber que levei algo para comer. Gleidson estava muito sujo, encardido, com dentes estragados, marcas da rua que diariamente carrega. Ele conta o que o faz sobreviver e aponta o que gostaria que acontecesse neste natal. “Não uso drogas, não mexo nas coisas dos outros nem roubar, eu faço meu trabalho assim, os carrinhos de garrafa. Tem muita garrafa ai, faço os carrinhos e vendo, mas nada contra a lei. Eu gostaria de passar o tempo em algum lugar e voltar a trabalhar de volta. Que Deus continue abençoando todos”, finalizou.
Gleidson me contou que não é usuário de drogas, mas é dependente do álcool. Nos últimos dias vários moradores morreram na nossa cidade. Na segunda reportagem, Gleidson conta o medo de permanecer na rua e o constrangimento de não conseguir um lugar digno para dormir, nem mesmo na Casa de Acolhida Cidadã. (Com informações do Repórter Samuel Straioto)












