Hoje é Dia dos Pais e nada melhor do que viver este dia conhecendo a história de Brasil Sales ou, daqui em diante, Sr. Brasil. Aos 77 anos, ele cursa o oitavo e último período do curso superior de Direito em Goiânia.

Nascido na cidade de Caldas Novas, no sul do estado, em 31 de dezembro de 1938, o pai de nove filhos, avô de 23 netos e bisavô de quatro bisnetinhos, além de mais um a caminho, Sr. Brasil conta uma trajetória de vida que começou na roça. Ainda pequeno, aos quatro anos de idade, ele relata que perdeu o pai. A mãe casou-se novamente e mudou-se para outra cidade. Ele e os irmãos foram morar com os avós.

A partir daí, Sr. Brasil passou a conhecer a importância da educação na escola. “A escola era de roça, mas o professor era muito bom, era muito sabido. E por um motivo justo ele foi lá para essa região e estabeleceu essa escola. Lá fiz o 4º ano”, conta.

Pouco tempo depois, os avós faleceram, fazendo com que ele e os irmãos fossem morar em Uruaçu, no norte do estado. Porém, um passeio em Caldas Novas, a mais de 450 km de distância, resultou em casamento.

Na cidade das águas quentes onde nasceu, Sr. Brasil conheceu a primeira esposa, mãe de sete de seus nove filhos. Depois de se casar, morou em uma fazenda em Uruaçu, mas um fator na época fez com que mudasse de ideia e fosse para a cidade.

“Moramos em uma fazenda às margens do rio Maranhão. Lá era roça, mexia com carro-de-boi, engenho de moer cana, fazia rapadura, cachaça, fui peão de boiadeiro. Mas eu vi que aquilo ali não dava. Na região que a gente morava dava muita malária, e eu pensei ‘não vou criar minha família aqui, não. Não quero isso para meus filhos’”, relembra.

Mudou-se para Colíder, no Mato Grosso, onde passou a trabalhar como mecânico e colocou todos os filhos na escola. 21 anos depois, Sr. Brasil separou-se da mulher e mudou-se com todos os filhos para Cuiabá-MT. Márcia, a filha mais velha, estudava Medicina na Bolívia, em Cochabamba. O pai de sete filhos então disse que sentia falta de uma companheira, após quatro meses solteiro. Não demorou muito para conhecer a atual esposa, dona Silvânia. Ele relata que o encontro foi amor à primeira vista.

“Pedi para Deus uma companheira e ele me arranjou uma melhor do que a encomenda, que é a Silvânia que está aqui. Somos casados há 36 anos. Ela morava aqui em Goiânia, era funcionária federal e fazia o curso de Língua Portuguesa. Com o casamento, transferimos o curso e o trabalho dela para Cuiabá. Porém, quando nos conhecemos falei para ela que o mais importante de tudo era meus filhos. E ela perguntou se no meu coração havia um cantinho pra ela.”, descreve.

Com dona Silvânia, Sr. Brasil teve mais dois filhos. Companheira, ela acolheu a todos os sete primeiros herdeiros. O mecânico eletricista conta que, na época, já tinha conseguido arrumar trabalho para todos os filhos, mas chegou um momento em que começou a passar por dificuldades, e teve que vender até um relógio para conseguir dinheiro. Então lembrou-se de um amigo que morava em Araguaína, no Tocantins, para o qual fez um telefonema, só que a cobrar.

“Falei para ele que ‘minha vida estava pior do que ele podia imaginar. Se você pensa que estou ruim, estou muito pior ainda’. Então fiz a ele um pedido: ‘Quero que você me mande Cr$ 10 mil, sabendo que nunca vou lhe pagar’. Em 45 minutos o dinheiro estava na minha conta. E graças a Deus, depois disso, a coisa andou”, conta.

Ainda na capital matogrossense, Sr. Brasil passou a trabalhar de mecânico para a Polícia Militar (PM), até que pediu um ano de licença para que pudesse montar a sua própria oficina. Licença concedida, os filhos foram se formando, cada um em seu curso superior, uns em universidades públicas e outros em particulares e, neste último caso, cada um pagando com seu próprio trabalho.

No ano de 1990, a família mudou-se para Goiânia. Os filhos então se uniram para que um deles pudesse estudar Medicina na capital goiana. Ele conta que todos pagaram o curso superior do irmão, que hoje é cirurgião cardiologista. Além dos filhos, Sr. Brasil exalta os 23 netos, entre eles advogados, médicos, fisioterapeutas e arquitetos.

Em 1980, Sr. Brasil, que tinha o 2º grau completo, já havia tentado cursar Direito, mas não conseguiu passar na segunda fase do processo seletivo. A nova chance chegaria em 2012, quando a filha Márcia, que já tinha dois cursos superiores concluídos, resolveu chamar o pai para fazerem o curso juntos. Sr. Brasil, no entanto, fez algo inusitado. “Eu me inscrevi e não contei para todo mundo, não. Fiquei calado, quietinho. Estava com medo de não passar e aí ia ficar com muita vergonha”, conta, aos risos.

Mas toda dedicação à família foi recompensada e Sr. Brasil conseguiu passar na prova. Uma das filhas, Maristene, que mora em Cuiabá, ajudou a custear as mensalidades. Ele, como bom aluno, em contrapartida, prestava contas com as notas dos boletins, e conta que 7,5 era considerada nota vermelha no desempenho. “A menor nota que tenho é 7,3. Tem também um 7,4, um 7,8 e outro 7,9, o resto é tudo acima de 8. De 8 a 10,0”, revela.

O patriarca conta que dedica o curso a toda a família, em especial a quem mais o incentivou, a filha Márcia. Apesar da conquista, que está prestes a acontecer, Sr. Brasil afirma que a graduação não será seu último desafio, e que pretende em breve fazer a prova da Ordem dos Advogados do Brasil, a OAB.

“Sou uma pessoa, hoje, mesmo antes de terminar esse curso, estou com a situação da vida resolvida, satisfeito. É uma satisfação muito grande ter levado, dos filhos aos netos, a evolução do ser humano. Em Cuiabá, durante uma festa na maçonaria, junto com meus filhos, um irmão maçom me falou que tem uma cadeira me esperando, e eu posso escolher se fico em Cuiabá ou em Santarém, no Pará”, relembra.

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Uma história construída com tanto trabalho, amor e conquistas só poderia deixar dona Silvânia ainda mais orgulhosa do marido e companheiro. Ela, que esteve junto em todos os momentos, inclusive nos mais difíceis, relata que está pronta para encarar os novos desafios do incansável Sr. Brasil.

“Gente, eu casei com um eletricista, e já era um partidão, né? E eu me orgulhava disso. Agora, esposa de um advogado. É muita realização, não é? Estou muito feliz com isso, muito satisfeita e honrada, de saber desse esforço, acompanhei essa trajetória toda. Que ele nunca pare de estudar, faça a OAB, seja feliz, vá para Cuiabá, Santarém, onde ele quiser. Vamos, né? (risos)”, incentiva dona Silvânia.

Incentivadora de carteirinha e agora colega de classe, a filha Márcia sabe exatamente como descrever o sucesso do pai. Em poucas, mas poéticas palavras, ela enaltece a experiência de vida que levou Sr. Brasil a estar prestes a concluir seu curso superior.

“Você pode transformar tudo na vida. Meu pai conseguiu transformar uma enxada em uma chave de fenda, esta em uma caneta e depois em um diploma de Direito. Isso é tudo. Se ele teve essa capacidade de transformação, por quê os jovens não podem ter essa capacidade? Todo mundo é capaz, basta querer”, ressalta Márcia.

Para o filho mais novo, Wander, Sr. Brasil é mais do que um exemplo a ser seguido. O caçula explica que o roteiro de vida do pai é uma lição que deve ser levada para todas a gerações.

“O meu pai é uma chave mestra. Ele abre muitas portas. Todos os locais que eu adentro, com a fechadura aberta pelo meu pai, é sucesso. Somos bem atendidos, recepcionados, e todos com muito carinho. Todos se emocionam ao falar do meu pai. Ele é exemplo de pessoa para o mundo inteiro, o Brasil é pequeno pra ele. Do filho mais velho ao mais novo, o sentimento é de muito orgulho, da pessoa que é pai, avô, bisavô, é o nosso arrimo da família”, destaca Wander.

O netinho Miguel, filho de Wander, de apenas 4 anos, já aprendeu a seguir os passos do avô nos estudos, mas o sonho profissional dele é outro, quer fazer Medicina, e manda um recadinho para o vovô Brasil: “Estou muito feliz que você vai se formar. Te amo muito, beijo!”, avisa o neto.

Além de Márcia e Wander, Sr. Brasil é orgulho também para os filhos Doriocan, Estênio, Marcilene, Maristene, Hiran, Werther e Brasil Jr. O homem que foi criado na roça, migrou para a cidade, passou por dificuldades e nunca deixou de lutar pela família, hoje celebra a vida com o fator que jamais deixou faltar aos filhos: a educação. E como bom pai, Brasil Sales manda o conselho aos filhos e a quem mais desejar seguir o seu exemplo.

“Tenha fé, coragem e interesse, e corra atrás. Não desanime, pois eu fui uma pessoa que não desanimo até agora. E o estudo, é uma coisa que serve até como entretenimento. Eu acho ruim quando entro de férias, não gosto de férias. Também é preciso amor de verdade pelo que faz, porque quando se faz uma coisa que gosta faz bem feito”, conclui.