Junior Kamenach
Junior Kamenach
Jornalista, repórter do Sagres Online e apaixonado por futebol e esportes americanos - NFL, MLB e NBA

Mobilidade em Goiânia: medidas da Prefeitura geram debates entre comerciantes e especialistas

Desde o início da gestão do prefeito Sandro Mabel (UB), em janeiro, a mobilidade urbana tem sido uma das prioridades em Goiânia. Entre as ações já implementadas, destaca-se a liberação dos corredores de ônibus para motocicletas e a desobstrução de vias arteriais.

A meta da prefeitura é liberar 100 km de corredores prioritários nos primeiros 100 dias de gestão, abrangendo avenidas estratégicas como Jamel Cecílio, 24 de Outubro, Independência, Castelo Branco e T-10.

No entanto, algumas dessas mudanças geraram reações entre comerciantes, que temem impactos no fluxo de clientes e na logística de abastecimento de mercadorias. O presidente da Federação do Comércio de Goiás (Fecomércio), Marcelo Baiocchi, em entrevista ao Pauta 2 do Sistema Sagres, reconhece a necessidade de melhorar a fluidez do trânsito, mas destaca os desafios para os empresários.

“Com certeza, todo comerciante deseja que o cliente tenha uma vaga na porta do seu comércio. Mas a cidade cresce e todos nós queremos uma mobilidade mais adequada. Quem antes gastava 15 minutos para chegar em casa, agora gasta 40 no horário de pico. Isso incomoda a todos”, afirma Baiocchi.

Vagas de estacionamento

A principal crítica do setor é a retirada de vagas de estacionamento em algumas dessas avenidas, medida adotada para ampliar as faixas de rolamento e melhorar o fluxo de veículos.

“Normalmente, essas vias têm três faixas de rolamento, mas apenas duas são utilizadas, porque uma está ocupada por carros estacionados. Ao eliminar essas vagas, ampliamos em 50% a capacidade da via. É um fator importante para a mobilidade, mas traz desafios para o comércio”, explica o presidente da Fecomércio.

Além disso, outro ponto sensível é a carga e descarga de mercadorias. Com a proibição de estacionamento em algumas vias, comerciantes enfrentam dificuldades para receber produtos, principalmente aqueles que lidam com materiais pesados.

“A gente precisa pensar em uma solução para o abastecimento dessas lojas. Algumas movimentam cargas de muitas toneladas e não há como descarregar na calçada, especialmente em uma cidade como Goiânia, onde o nivelamento das calçadas é um problema”, ressalta Baiocchi.

Inspiração

De acordo com ele, Goiânia pode se inspirar em grandes metrópoles que já enfrentam essa questão há anos. “São Paulo tem um modelo a ser analisado. Precisamos entender como eles fazem e adaptar à nossa realidade. O comércio continua existindo mesmo onde não há estacionamento. A questão é encontrar um modelo viável”, sugere.

Além das mudanças já em vigor, a Fecomércio defende a retomada da discussão sobre o escalonamento de horários em Goiânia. A ideia é que setores como construção civil, escolas e comércio iniciem suas atividades em horários diferentes, distribuindo melhor o fluxo de veículos ao longo do dia.

“Se mantivermos indústrias e construção civil começando às 7h, escolas às 8h e o comércio às 9h, teríamos um escalonamento mais eficiente. Os shoppings já abrem às 10h. Isso ajudaria a evitar picos de congestionamento”, explica Baiocchi.

Debate já ocorreu

Durante a pandemia, essa proposta foi discutida como uma forma de evitar aglomerações no transporte coletivo, mas acabou não sendo implementada. O debate, no entanto, ganha força novamente diante do atual cenário do trânsito na capital.

“É uma ideia que merece ser testada. Durante as férias escolares, por exemplo, percebemos como o trânsito melhora. Isso mostra que mudanças no fluxo de horários podem trazer benefícios”, analisam especialistas.

Com a cidade em crescimento e os desafios da mobilidade cada vez mais evidentes, a prefeitura e os setores impactados precisam encontrar soluções que conciliem o desenvolvimento urbano com a viabilidade econômica dos estabelecimentos.

Secretário apresenta novas medidas

O secretário de trânsito, Tarcísio Abreu, destacou ao Pauta 2 as principais ações adotadas e os desafios enfrentados na gestão do tráfego. Entre as medidas, estão a desobstrução de vias arteriais, a reprogramação semafórica e a criação de faixas exclusivas para garantir maior fluidez.

“O prefeito Sandro Mabel tem cobrado muito dessa pasta, e nós estamos trabalhando diariamente para oferecer um trânsito mais eficiente e seguro”, afirmou Abreu.

Ele ressaltou que a primeira grande ação foi a retirada de semáforos redundantes, como ocorreu na Avenida Jamel Cecílio, resultando em um ganho de 30% na velocidade do tráfego. No dia 10 de janeiro, a Prefeitura lançou o programa “Nova Mobilidade”, formalizado pelo decreto 1061, de 17 de fevereiro.

O plano inclui três pilares fundamentais: trânsito, transporte público e mobilidade ativa. ” A cidade precisa desses três pilares para garantir uma mobilidade mais equilibrada e harmoniosa”, explicou o secretário.

Destaques

Entre as medidas implementadas, destaca-se a remoção de estacionamentos nas vias principais, a modernização da sinalização e a implantação de novas regras para carga e descarga.

“Os caminhões terão um prazo até o final de março para se adequar. A partir disso, precisarão utilizar áreas internas das obras ou estacionar sobre calçadas devidamente regulamentadas”, afirmou Abreu.

Apesar do foco na fluidez do trânsito, a Prefeitura garante que pedestres e ciclistas não foram esquecidos. “A prioridade é a segurança. Campanhas educativas estão em andamento para conscientizar motoristas sobre o respeito às faixas de pedestres e ciclovias”, destacou o secretário.

Para garantir a segurança nas novas áreas de “direita livre”, onde veículos podem virar sem necessidade de semáforo, foram instaladas placas incentivando pedestres a sinalizar com a mão ao atravessar. “Se o pedestre levantar a mão, o motorista deve parar. A sinalização está bem clara nesse sentido”, explicou.

Corredores para ônibus e motos

Uma das mudanças mais significativas foi a liberação dos corredores exclusivos de ônibus para motocicletas, decisão que gerou debates após um acidente fatal ocorrido no último mês.

“Apesar do acidente, o compartilhamento tem sido positivo. Estamos acompanhando de perto e reforçando a educação no trânsito para evitar novos acidentes”, disse Abreu.

A Secretaria tem trabalhado junto a associações de motociclistas e empresas de ônibus para garantir que a nova dinâmica funcione de forma segura.

“O motorista precisa estar atento. Agora, ao acessar a terceira faixa, ele deve sinalizar corretamente e respeitar o espaço compartilhado com motocicletas”, alertou o secretário.

Fiscalização e educação no trânsito

O secretário reconheceu a necessidade de melhorar a fiscalização e a atuação dos agentes de trânsito. Questionado sobre a postura de alguns fiscais, como no caso de uma van da própria secretaria que não respeitou uma faixa de pedestres, ele garantiu que haverá ajustes.

“Nós temos que ser exemplo. Se houver falhas, corrigiremos. Queremos um corpo técnico forte e capacitado para garantir segurança e fluidez no trânsito”, afirmou.

O programa “Nova Mobilidade” ainda prevê a atualização do Plano de Mobilidade Urbana nos próximos 180 dias, incluindo novos estudos sobre origem e destino dos deslocamentos na cidade.

“Precisamos entender melhor como as pessoas se movimentam para planejar o trânsito com mais eficiência”, concluiu Abreu.

Mobilidade e segurança

O Pauta 2 ainda contou com a participação da professora Cíntia Campos, do curso de Engenharia de Transportes da Universidade Federal de Goiás (UFG). Durante a conversa, a especialista destacou os impactos positivos e as possíveis consequências a longo prazo das iniciativas em andamento.

Entre as ações da Prefeitura, a ampliação do número de faixas de rolamento foi apontada como uma solução que pode surtir efeito imediato, mas que pode perder eficiência com o tempo.

“Algumas medidas podem trazer impactos positivos a curto prazo, mas podem se tornar um problema no médio e longo prazo. A ampliação de faixas, por exemplo, pode induzir mais motoristas a utilizarem a via, o que acaba recriando congestionamentos”, explicou Cíntia Campos.

Para evitar essa chamada “demanda induzida”, a professora ressaltou a importância de alternativas que priorizem a mobilidade ativa, como a criação de ciclovias e a ampliação de calçadas. “Se conseguimos atrair pedestres e ciclistas, reduzimos a quantidade de veículos individuais nas ruas, o que contribui para a fluidez do trânsito sem incentivar o uso excessivo do carro”, afirmou.

Escalonamento de horários e tecnologia como soluções

Outro ponto abordado no programa foi a proposta de escalonamento de horários de funcionamento para setores da cidade. De acordo com a especialista, a estratégia pode ajudar a diminuir os congestionamentos nos horários de pico.

“Se conseguimos diluir ao longo do tempo essa demanda de deslocamento, podemos reduzir a formação de filas e melhorar a fluidez do trânsito”, pontuou. O investimento em tecnologia para o monitoramento do tráfego também foi debatido.

A Prefeitura pretende investir R$ 100 milhões na criação de uma central integrada para gerenciar semáforos e o transporte público. Para Cíntia Campos, esse tipo de solução pode trazer impactos positivos, especialmente com a implementação de sistemas semafóricos inteligentes.

“A sincronização dos sinais – a chamada onda verde – pode melhorar o fluxo de veículos. Mas é essencial equilibrar fluidez e segurança, garantindo que as velocidades sejam mantidas dentro de limites seguros”, alertou.

Velocidade e segurança viária: um ponto de atenção

A possível elevação do limite de velocidade em zonas 40 para 50 km/h e a implementação da chamada “direita livre” também foram temas da discussão. A medida preocupa especialistas e defensores da mobilidade segura, pois pode aumentar o risco de acidentes com pedestres.

“Quando elevamos a velocidade, reduzimos a chance de sobrevivência de um pedestre em caso de atropelamento. A fluidez é importante, mas não pode se sobrepor à segurança”, enfatizou a professora.

Além disso, Campos alertou sobre os pontos de conflito entre veículos e pedestres. “Precisamos lembrar que a infraestrutura deve priorizar a segurança. Se há necessidade de mudanças como a direita livre, é essencial reduzir a velocidade e garantir tempo adequado para a travessia dos pedestres”, acrescentou.

Educação no trânsito: a mudança mais necessária

Ao final do debate, a professora destacou que, além dos investimentos estruturais, a educação no trânsito é um fator determinante para melhorar a mobilidade em Goiânia.

“Nenhuma medida será eficaz se os condutores e pedestres não estiverem conscientes da importância do respeito às normas de trânsito. A mudança começa pelo comportamento de cada um”, concluiu.

O debate evidencia que as medidas adotadas até agora podem trazer melhorias, mas exigem cautela para evitar impactos negativos no futuro.

O desafio da mobilidade urbana em Goiânia, portanto, não depende apenas de infraestrutura, mas de um planejamento que equilibre fluidez e segurança, priorizando um trânsito mais sustentável e acessível para todos.

*Este conteúdo está alinhado aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), na Agenda 2030 da Organização das Nações Unidas (ONU). ODS 08 – Trabalho Decente e Crescimento Econômico; ODS 11 – Cidades e Comunidades Sustentáveis

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