Fique com Deus, Marcinha
Nilson Gomes
Márcia Elizabeth foi a jornalista mais famosa de Goiás, contados todos os meios de comunicação. Marcinha, como os amigos a chamavam, tinha público tão grande que uma vez testemunhei algo incrível.
O cantor Roberto Carlos havia vindo a Goiânia fazer show e obra de caridade, para a qual pediu discrição (a entrega de dinheiro do próprio artista para construir uma entidade de proteção a crianças e adolescentes pobres).
Organizadores colocaram uma mesa comprida para o “rei” falar com a imprensa (naquela época os reis de alguma coisa falavam com a imprensa) e com admiradores (naquela época os artistas famosos recebiam a audiência sentados, com educação). Antes de os jornalistas soltarem qualquer sílaba, estava cheio o recinto (no aeroporto ou num shopping, não me lembro bem, tentei checar e não consegui). Quem lotou foram os admiradores, numa fila organizada, mas imensa, e tão cheia de curvas quanto a estrada de Santos. Aliás, “numa” fila, não, em duas: havia uma para pegar assinatura de Roberto Carlos e outra, não tão grande quanto, mas também numerosa, para colher o autógrafo de Márcia Elizabeth, que acumulava a condição de repórter e celebridade (naquela época as celebridades tinham conteúdo).
Contemporâneos de pautas se lembram de ela atender os entrevistados, tirar foto (naquela época, as máquinas eram raras), e só então começar a reportagem. Atender é exatamente o verbo, porque Marcinha era de uma fineza impressionante. A polidez a aproximou não somente dos personagens de suas matérias, mas também dos protagonistas da economia nacional. Era amicíssima tanto de pé-rapado das redações (categoria na qual me incluo e da qual nunca saí) quanto do dono da TV, da manicure e do CEO da fabricante de cosméticos, da cozinheira e dos executivos da multinacional de alimentos.
Empresário que fez bilhões no ramo farmacêutico estava no auge da depressão, não gostava de conversar com quase ninguém e a Marcinha era uma das exceções.
Tenho meia dúzia de três ou quatro amigos ricos e ela havia chegado primeiro na amizade com todos eles.
Bem relacionada que só, socorria a banda sem-grana de seu círculo de amigos, fosse para arrumar tratamento médico ou o dinheiro do aluguel, local para morar, emprego, desconto em faculdade (naquela época pré-Enem e antes da Bolsa Universitária).
Vão fazer muita falta seu refinamento, sua civilidade, sua diplomacia para ouvir, a desmesurada capacidade de fazer e manter amigos. Pena não ter convivido mais com a Marcinha. Ela tornava melhores as pessoas que tinham a honra de compartilhar da sua presença. Sempre fui uma criança de oito anos, estando com dois ou aos 42, e ela reservava paciência para me dar conselhos. Fazia isso com diversos outros. Ainda bem que trabalhei ao lado de Suely Arantes e escapei de ser completamente intratável – Suely e Márcia Elizabeth atuavam em empresas diferentes, o que socializava a solidariedade, porque ambas nasceram com a vocação para servir e, estando cada qual num lugar, é duplicada a possibilidade de haver mais gente feliz na Terra. Quem tem uma amiga como a Suely está livre da solidão, do isolamento. A Marcinha cumpria a mesma missão no planeta.
Nesses dias em que a Lua tem sido espetacular, este seu fã estava longe quando soube dos acontecimentos com a Marcinha. Corri para perto de lan house para lhe escrever esse bilhete, para lhe dizer que a Lua vai ser obrigada a aparecer cada vez maior, para vermos se consegue suprir parte da luz natural que se foi com o brilho da Marcinha.
O Sol nasce para todos, mas Deus escolhe alguns para receber os raios mais direta e frequentemente. No âmbito pessoal, uma verdadeira mãe para as comunidades carentes, pois colhia donativos para elas o ano inteiro, e não apenas produtos comestíveis, mas cursos, cirurgias, imóveis. No plano profissional, alguém que consegue cobrir reivindicação de líder de bairro e baile chique, com a isenção que carece à imprensa enxovalhada inclusive nas manifestações de rua.
Alguém assim merece a comparação com o Sol, com a Lua. Afinal, como Roberto Carlos testemunhou na vinda a Goiânia, a Marcinha era uma estrela. E não precisa nem a gente ir ao Planetário para ver a continuidade de seu brilho lá de cima: vai nos iluminar como uma constelação.
Marcinha acreditava na continuação da vida. É exatamente o que ocorre nesse episódio: não precisa ser religioso para reconhecer que pessoas iguais a ela são para sempre.









