Fabiane Fagundes

Ser policial é abraçar uma das mais difíceis profissões do mercado, tendo em vista os procedimentos de alto risco e as inesperadas situações emergenciais, que exigem do policial um desempenho rápido, correto, preciso, fundamentado na lei e em absoluto bom senso. A profissão requer bom condicionamento físico e muito equilíbrio mental. Em conversa informal com soldados da Polícia Militar e agentes da Polícia Civil, encontramos indícios de que a saúde da policia goiana precisa de mais atenção.  

Com a certeza de que não seria identificado, um militar revelou à reportagem que trabalha nas ruas mesmo sendo bipolar, doença psiquiátrica caraterizada por variações acentuadas de humor, com crises de depressão. Ele prefere manter sigilo da doença, caso contrário poderia perder o porte de arma e ser remanejando para serviços administrativos. Entre os soldados e sargentos que estão na ativa encontramos vários casos de alcoolismo.

FOTO MAJOR ARAÚJOA impressão que se tem é que o assunto é tabu para a PM goiana. Numa entrevista à Rádio 730, o deputado estadual Major Araújo afirmou que a polícia é recordista em casos de afastamento por problemas psiquiátricos.  Não conseguimos comprovar a denúncia, pois o comandante de Saúde da Policia Militar, coronel Elói Bezerra, não permitiu a divulgação de dados que responderiam a questões como o número de policiais em  licença médica e as doenças causadas pelo exercício da profissão.

O assunto é tratado com superficialidade até mesmo pelos integrantes da Associação dos Cabos e Soldados. O Secretário Geral, Cabo Vanderley responde às perguntas com desconfiança. “Esses dados precisos a gente não tem. O que a gente sabe é o que chega ao conhecimento, os dados concretos  não tem. É aquele negócio, é algum ou outro que tem algum problema e que se manifesta.

Os militares e seus familiares são atendidos no hospital da PM, que fica em Goiânia. Na unidade existe um núcleo especial de psicologia. Segundo a chefe do departamento, o tenente-coronel Miriam Bueno,  a cada dois anos a tropa  passa por uma avaliação física e mental, mas ela reconhece a dificuldade em triar todos que estão com problemas de saúde em decorrência da profissão.  “Os transtornos psicológicos se tornam mais difíceis porque ainda tem aquele que consegue de alguma maneira esconder ou manter um certo controle no trabalho. Como é uma corporação muito grande, de 12 mil homens, a gente também não tem um núcleo de saúde em cada unidade, não tem como a gente fazer esse acompanhamento pessoa por pessoa.”

DELEGACIASNa polícia civil, a saúde dos agentes, escrivães e delegados é tratada com transparência, o que não diminui a gravidade dos fatos.  De acordo com os dados do centro de saúde do servidor público, em 2012, 545 policiais civis tiraram licença médica para tratar doenças desencadeadas pela profissão.  Vinte e dois por cento dos afastamentos se deram por problemas mentais, sendo que 36 são casos graves.

Maria Fernanda, gerente do centro médico do servidor público afirma que Esse levantamento  prevê o que que o estado está  gastando  com esse servidor que está parado. Com esses dados a gente pode fazer uma prevenção, é o que a gente está começando a fazer com os exames periódicos, que até hoje nunca foram feitos no estado,  e começamos nesse ano passado, pra gente redefinir antes que a coisa aconteça.

Desde o ano passado, a categoria conta com núcleo de saúde  psicológica. Uma iniciativa tímida que, segundo a gerente da unidade, Sueli das Dores da Silva, não resolve o problema.  “O policial civil e a segurança pública estão sempre lidando com casos de estresse no trabalho e cotidiano da vida. Já existia a assistência social da polícia civil, que era um trabalho pequeno, mas a polícia civil viu a necessidade de criar um espaço maior onde o policial pode contar com atendimento psicológico.” Segundo a  Suley da Silva, coordenadora do núcleo de saúde da PC,  há uma demanda muito grande e, quando não o núcleo  não tem condições de atender, o policial é encaminhado para um profissional de fora, geralmente do Ipasgo.

É esse policial com problemas de saúde que mal são diagnosticados que garante a segurança da população e, por vezes, atenta contra ela.