Norberto Salomão
Norberto Salomão
Norberto Salomão é Advogado, Historiador, Professor de História, Analista de Geopolítica e Política Internacional, Mestre em Ciências da Religião e Especialista em Mídia e Educação.

A trágica morte de Shinzo Abe pode colocar o Japão no “divã”

A cultura japonesa tem aspectos curiosos e fascinantes. Suas tradições milenares têm raízes em elementos da cultura chinesa, mas, tomaram seus próprios rumos e se consolidaram entre os séculos XVII e XIX, quando o país se isolou. Esse isolamento permitiu uma ruptura em relação ao domínio chinês e favoreceu o desenvolvimento de uma cultura multifacetada, embasada nos milenares princípios do budismo e do xintoísmo, que por séculos coexistem no Japão, influenciando profundamente a mentalidade e os costumes desse povo.

O sentimento antichinês estimulou, entre os séculos XVIII e XIX, um revigoramento da crença xintoísta. Caracterizado pelo politeísmo, pelo culto à natureza e aos antepassados, o xintoísmo remonta os primórdios da organização do povo japonês.

 A perspectiva filosófica do xintoísmo (a palavra Shinto pode ser traduzida como o “Caminho dos deuses”) considera que o ser humano deve viver em harmonia com a natureza, inclusive compreendendo e aceitando os efeitos de suas manifestações mais violentas, como furacões e terremotos. Assim, essa concepção sobre a existência humana embasa uma perspectiva voltada para a resignação e a capacidade de estar sempre pronto a recomeçar, a reconstruir, a se adaptar e até mesmo absorver novas ideias.

Leia mais:

A doutrina filosófica e espiritual do budismo, surgiu por volta do século VI a.C, na índia, com Siddhārtha Gautama, o “Buda” (iluminado). Essa doutrina chegou ao Japão por volta do século VI da Era cristã, por meio de missionários chineses. Além do aspecto filosófico o budismo colaborou para a implementação da escrita no Japão. Assim, o budismo japonês desenvolveu-se mesclando-se com o confucionismo, o taoísmo e o xintoísmo, ou seja, o sincretismo de crenças e práticas filosófico-religiosas foram forjando o modo de vida da cultura japonesa. Enquanto o xintoísmo relaciona-se às questões mais terrenas, cotidianas e do bem-estar físico, o budismo se concentra no desenvolvimento das virtudes e da evolução espiritual.

É claro que em uma cultura tão longeva esses valores foram sendo ressignificados e adaptados ao contexto histórico. Nesse sentido cabe destacar o Gaman, termo de origem zen-budista que significa “suportar com paciência e perseverança”, ou seja, as adversidades devem ser enfrentadas com resiliência e tolerância. Prega que o indivíduo deve estar sempre preparado para as maiores dificuldades sem se revoltar, pois só assim poderá fazer o melhor. Sem dúvida esse tipo de concepção colaborou para que os japoneses desenvolvessem uma cultura baseada na disciplina e no autocontrole, além de um sentimento de que o interesse coletivo e colaborativo deveria estar acima das questões individuais.

Apesar do “gaman” ter se originado a partir dos ensinamentos da cultura filosófico-religiosa japonesa, sua abrangência entre a população ganhou destaque após as bombas atômicas sobre Hiroshima e Nagazaki, relacionando-se com a necessidade de reconstrução material e cultural da nação japonesa. Fundamenta-se assim a ideia de total valorização da disciplina e do trabalho, bem como do sacrifício individual em prol do bem-estar coletivo.

Nos anos que se seguiram ao pós Segunda Guerra Mundial, a sociedade japonesa, para poder reconstruir o país, fortaleceu os laços de cooperação coletiva, de vigilância mútua e de automonitoramento. Estudiosos do tema, como o criminologista Nobuo Komiya, de Tóquio, acreditam que esse tipo de mentalidade, relacionado ao “gaman”, podem ter contribuído para desestimular atos de violência e reduzir os próprios índices de criminalidade na sociedade japonesa.

Ocorre que, recentemente, muito se tem questionado os efeitos colaterais dessa mentalidade frente aos novos desafios da sociedade contemporânea. Apesar do aparente equilíbrio atribuído à prática “gaman”, acredita-se que diante do atual cenário, de profundas transformações socioculturais, muitas pessoas têm se sentido extremamente pressionadas e começam a apresentar sintomas de abalos em sua saúde mental e emocional. Nesse sentido, muitos jovens vêm se afastando da prática “gaman” e do modo de pensar e agir das gerações mais velhas.

O aspecto mais dramático é que a perspectiva “gaman” acabou gerando um tipo de comportamento mais introvertido, no qual os indivíduos raramente expressavam seus sentimentos e conflitos interiores. Com os efeitos da pandemia de Covid-19 pesquisas têm apontado o aumento da violência doméstica e de problemas relacionados à saúde mental. Porém, buscar ajuda especializada para tratar esses problemas muitas vezes é considerado sinal de fraqueza. Assim, o indivíduo sentindo-se pressionado por todos os lados pode ser susceptível à surtos de ira ou até mesmo levar ao autoextermínio.

É importante destacar que desde o início da década de 90 os japoneses, nos mais variados níveis de educação, acompanham os empregos estáveis diminuírem, com isso eles têm que submeter cada vez mais a trabalhos temporários, nos quais não existem mais as antigas garantias de estabilidade. Talvez esteja aí o grande choque que se abate sobre as novas gerações do Japão, ou seja, como se situar em um mundo cada vez mais individualista e de perspectivas incertas.

Entretanto essas reflexões mais críticas sobre a atual sociedade japonesa não é a concepção que a opinião pública internacional tem sobre o país. A ideia prevalente é de um Japão ultracivilizado, pacífico, com baixíssimos índices de violência e uma rigorosíssima legislação para o porte de armas. Por isso, o atentado que levou à morte, no dia 08 de julho, do ex-primeiro-ministro Shinzo Abe estarreceu o mundo, pois mesmo depois de deixar o cargo ele ainda era considerado um dos políticos mais proeminentes do país e do cenário internacional.

Pois é, é nesse Japão em profunda transição que vive Tetsuya Yamagami, desempregado de 41 anos, responsabilizado como o autor dos tiros que mataram Shinzo Abe. Ele admitiu que atirou utilizando uma arma caseira. Um primeiro levantamento sobre sua vida revelou que ele serviu na Marinha Japonesa por três anos. Recentemente trabalhou em uma fábrica e que se demitiu esse ano.

O assassinato de Shinzo Abe é lamentável sob todos os aspectos, mas o que surpreende é o fato de que o número de mortes por armas de fogo no Japão é muito reduzido. Outro aspecto é a dúvida que fica no que se há alguma motivação política mais profunda para esse crime,  já que o país realizou eleições legislativas neste domingo, 10 de julho.

O fato é que esse trágico acontecimento talvez possa permitir uma perspectiva mais crítica sobre a sociedade japonesa atual, suas contradições e os desafios que se apresentam nessa sociedade em profunda e, por vezes, silenciosa transição.

Mais lidas:

Leia também: